A quarentena do Comunavírus



Reflexões sobre o Brasil, olavismo e a Civilização Ocidental


Manifestação a favor de Bolsonaro e contra o Congresso na Esplanada dos Ministérios
Crédito da imagem: https://www.metropoles.com/distrito-federal/politica-df/ataques-ao-congresso-e-ironia-a-coronavirus-marcam-atos-no-df

Assistindo os vídeos das manifestações antidemocráticas recentes, em que manifestantes com camisas amarelas da CBF e com a bandeira nacional pediam intervenção militar, soou curiosa a expressão: “muito mais perigoso para o Brasil do que o Coronavírus é o Comunavírus”. Interessante como esse termo pegou entre os partidários do presidente, apelidados de bolsominions, e entre todos os simpatizantes desse movimento de extrema-direita que interpreta tudo o que se opõe à sua limitada visão de mundo como Comunismo, de modo que até mesmo o governador de São Paulo, membro de um partido hoje definido como centro e com muitos militantes de centro-direita, liberal e defensor do livre-mercado, ao defender o isolamento e se opor às ideias do presidente da república, passou a ser classificado como Comunista. Tal interpretação grosseira do espectro político deve-se à limitada interpretação do “guru” ideológico deste governo, Olavo de Carvalho, que interpreta todos os movimentos contrários aos originários e tradicionais valores da civilização ocidental como ação de um mal denominado por ele e seus asseclas como “marxismo cultural”, pensamento que vamos denominar como olavismo.
Mas os bolsominions já estão em quarentena. É claro que não é a quarentena do Coronavírus mas, contra o Comunavírus – um poderoso e invisível inimigo que se opõe tão ferozmente ao quadrilátero dos valores basilares da nossa civilização, a saber: cultura europeia, cristianismo, propriedade privada e família. Esse inimigo, portanto, após fracassar pelas vias da política e da economia, descobriu que poderia se infiltrar na civilização pela cultura para destruí-la por dentro. Seu objetivo: matar a Civilização Ocidental.
Antes, porém, precisamos compreender a razão de tanto medo do bolsominion e a resposta não poderia ser outra, senão a constatação de que este é um organismo frágil. Faz sentido, afinal suas ideias se baseiam na negação da realidade e da história. Vivem de um sonho perdido ancorado ao mito da idade do ouro da Civilização Ocidental. Suas ideias partem de um passado perfeito que, quando confrontado com a realidade, se dilui como algodão doce na água. Daí o motivo de sua quarentena. Tal como o menino da bolha, o bolsominion tem alergia do mundo real, já que a menor partícula da realidade poderia desfazer essa ilusão. Qual a saída? O isolamento! Não nos enganemos: o bolsominion está de quarentena faz tempo, ou melhor, vive em quarentena. Como organismo frágil que é, só sobrevive se isolando. Qualquer toque em um ambiente contaminado com algo fora da sua ideologia já seria suficiente para contaminar e matar o minion dentro dele. Daí a necessidade extrema de esterilização. Os gritos de ódio são sinais de alerta: “Esse jornal transmite Comunavírus”, “esse político foi infectado pelo Comunavírus”. Até mesmo Sérgio Moro, que ontem era o herói da direita nacional, quando entrou em atrito com o presidente foi diagnosticado com Comunavírus. Quanto mais frágil um organismo é, mais ameaças ele tem e o bolsominion é um organismo tão frágil politicamente, moralmente e intelectualmente que, praticamente, o mundo inteiro é uma ameaça à sua sobrevivência.
Contudo, não é fácil ser Bolsominion. Ele vive em um mundo que lhe oferece constante perigo e ameaça. Tudo pode ser para ele fonte de contaminação com o Comunavírus: livros, filmes, jornais, revistas, músicas... Tudo impregnado com essa ameaça invisível que quer destruir o seu organismo. A quarentena intelectual deve ser severa para manter o bolsonarismo vivo dentro dele, caso contrário, um pequeno toque em um livro e o esfregar repentino dos olhos, já poderiam trazer o Comunavírus para a razão. Pronto, mais um contaminado!
Mas, afinal, o que é o bolsonarismo? É um organismo parasita transmitido principalmente por redes sociais como o Twitter, WhatsApp, Facebook e Youtube. Basta usar umas dessas redes sem cuidado para se contaminar, tal como a figura tão comum em livros de ciências, do homem que contraiu o parasita da ancilostomose por pisar na merda sem chinelo. As redes sociais não são ruins e não são as culpadas. A culpa é de quem “caga” nela. Não é qualquer cagada, mas uma que tenha os ovos do parasita responsável por tal contaminação, no caso a sua base ideológica: o olavismo. É interessante a analogia, pois tais políticos e pseudo-pensadores possuem carreiras parasitárias, sugando muito de quem os nutre, mas sem oferecer nada em troca. Mas, como todo parasita, quer permanecer vivo e provoca náuseas em seu hospedeiro toda vez que este se aproxima de algo que poderia expurgá-lo de seu corpo. Por isso, tudo o que poderia matar o vírus do bolsonarismo é interpretado como Comunavírus: a ciência, a tolerância, a liberdade de imprensa, a universidade etc. Porém desconhecem, ou simplesmente ignoram, que esses são os verdadeiros valores do Ocidente contemporâneo. Assim, podemos compreender, afinal, o que tanto os preocupa.
Mais do que tudo o que foi escrito acima, o grande valor do Ocidente hoje, por mais contraditório que pareça, é ser a cultura fraca: aquela que busca ter consciência dos seus limites e dos seus defeitos e que, por isso, rejeita o posto e a própria noção de centro. Ao se definir como a cultura fraca, o ocidente entrou no que chamamos de mundo pós-moderno, o que possibilitou o nascimento de pequenas verdades antes abafadas pela ideia de verdade universal e hegemônica, e permitiu o desenvolvimento das noções de pluralismo, diversidade e os novos modos de ser. O ocidente feriu a ideia de centro e isto possibilitou a ascensão das periferias. Desse modo, tornou possível as reflexões recentes sobre o poder e as estruturas de dominação dentro da sociedade, bem como o nascimento de reflexões longe das estruturas piramidais de poder. É isso o que o olavismo odeia e que denominou, de forma genérica e grosseira, como comunismo.
Esse discurso apregoado pelo olavismo, como forma de narrativa hegemônica sobre a Civilização Ocidental, não se sustenta mais. Começou a ser derrubado ainda na modernidade (ou seja, muito antes do marxismo existir). Não é à toa que negando toda a ciência e a tradição acadêmica, vimos renascer pensamentos contra-modernos na atualidade, cujo representante mais famoso é o terraplanismo, e que representa a rejeição máxima de tudo o que o ocidente se tornou a partir da modernidade? Dentro de um mundo sem centro, tais ideias até poderiam encontrar espaço para coexistir, mas estas não suportam a coexistência. Querem ser únicas, exclusivas e, por isso, odeiam o que o mundo ocidental se tornou, odeiam a realidade em que vivem. Na verdade, quereriam viver num mundo medieval ideal, gamificado, o que explica os cosplays de cavaleiros medievais, o brado do papa para os cruzados “Deus vult”, a oposição ferrenha ao islã, a defesa da Europa e da cristandade. Mas fazem tudo isso como se fosse uma série de TV ou um filme de fantasia medieval, porque desconhecem a história. Negam as informações acadêmicas com a desculpa de que a universidade, uma das maiores contribuições da cristandade para o Ocidente, estaria hoje também contaminada. Por ter rompido com essa visão de mundo, abominam o que o ocidente se tornou. É isso o que eles chamam de comunismo, termo genérico para identificar tudo aquilo que veem como ameaça à civilização ideal e que, em outros tempos, poderia ser o diabo, a bruxaria, os bárbaros etc. Assim como o terraplanismo, querem voltar à centralidade do universo, porém, como não encontram mais espaço dentro dos ambientes acadêmicos, nem nas mídias, nem na literatura, nem na política, só conseguem sobreviver parasitando nos limbos da internet. Depositam seus ovos nas fezes dos comentários mais esdrúxulos e torcem para que encontrem um hospedeiro frágil suficiente para que estes possam sobreviver.
Essa é a quarentena do Comunavírus. O bolsonarismo só sobrevive em quarentena mental. Mas nenhuma quarentena dura para sempre. Uma hora ela vai acabar e, sem escapatória, vamos ter que encarar a realidade novamente. Para muitos, será um grande alívio e causa de alegria porém, para o bolsominion, a realidade, tal como ela é hoje, causa repulsa. Ele prefere a quarentena mental, tal como na famosa alegoria de Platão, em que os moradores diante da descoberta do mundo real, preferiram a caverna. De fato, todos podemos nos maravilhar com o mundo grandioso, mas inseguro, ou preferir a pequenez e segurança da caverna e o conforto das sombras das suas Fake News e o mundo artificial das redes sociais. Encarar a realidade significa, por mais doloroso que isso seja, que podemos errar, mudar, que somos fracos e limitados, e que as pessoas e o mundo não são como eu gostaria que fossem. No final fica o convite: não tenham medo do que te ensinaram como sendo o Comunavírus. Vocês não virarão comunistas, nem socialistas, nem qualquer outra coisa que disseram que vocês iriam virar – ou até poderão, quem sabe, já que é a pluralidade que torna o mundo interessante. Mas uma coisa é certa: serão, com toda a leveza e imperfeição que têm direito, simplesmente humanos.




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