Os profetas do capitalismo ou os áugures de Mamon

 Crítica aos comentaristas de economia da TV e da Internet


Em cada época histórica era comum uma classe sacerdotal ser consultada para previsões sobre do futuro. Eles interpretavam os desígnios dos deuses nas estrelas, em voos de pássaros, em formas de fumaça e, até mesmo, nas entranhas de animais sacrificados. Na Roma antiga até havia um colégio sacerdotal especializado para isso: o colégio dos áugures, que sempre eram consultados antes de decisões importantes, como o início de uma batalha, por exemplo. Saber interpretar os sinais dos deuses era fundamental para elaborar uma estratégia e tentar garantir uma vitória – ou o agrado das divindades – o que for mais fácil ou mais urgente.

 


O abate de um touro para que os sacerdotes possam obter presságios do futuro. Hoje não se oferecem mais animais, mas dinheiro em troca dos bons presságios.

Referência da imagem: https://aminoapps.com/c/mitologicpt/page/blog/os-sacerdotes-e-sacerdotisas-da-roma-antiga/vV27_2qtnuN5nvDmN3YDJlN7qkoqkBkqNw

 

Isso nos mostra que os seres humanos sempre buscam uma forma de prever o futuro. O mundo é inseguro, inconstante, instável e a nossa busca por segurança nos leva sempre atrás de presságios do futuro. Afinal, decidir se casar, trocar de emprego, viajar, ter um filho ou, simplesmente, saber o que nos aguarda no futuro, nos trás paz e segurança para vivermos. Por isso que, apesar de todo o nosso avanço científico e tecnológico, as revelações nunca saírem de moda. Em São Paulo não é incomum andarmos por pracinhas ou vermos barraquinhas nas ruas com pessoas oferecendo serviços de quiromancia ou cartomancia. Em igrejas, principalmente de origem pentecostal ou carismática, também são comuns as chamadas “revelações e profecias”, em que uma pessoa, movida pelo Espirito Santo, traz uma palavra sobre o futuro de alguém. O efeito, tão comum, é o mesmo, só se muda a placa da instituição.

E, assim como em Roma havia o colégio dos áugures para interpretar os presságios, hoje temos um equivalente a altura, que podemos chamar de “colégio dos economistas”. É claro que existem economistas sérios, éticos e responsáveis. E não estou me referindo a esses. Estou, isso sim, é criticando aqueles que se consideram intérpretes dos presságios econômicos contemporâneos e adoram, no sentido exato do termo, revelar o futuro. E afirmam com tamanha convicção que parece que quando a profecia não se concretiza, não foi o áugure que se equivocou, mas a realidade! Tal posição é muito comum em “influenciadores de economia”, procurados por pessoas que não apenas querem revelar o futuro, como também pagam para saber o que fazer. Tal posição de áugure também é comum em comentadores de economia na mídia, que aproveitam momentos especiais dentro do principal jornal de uma emissora, para transmitirem sua interpretação dos presságios do “deus mercado”, o que os governos deveriam fazer e os riscos que correm de não seguirem seus conselhos. Eles não estão fazendo economia e nem política, mas sim religião! São os profetas do capitalismo ou, se preferirem, os áugures de Mamon: o deus dinheiro!

 


Mamon de Collin de Plancy. Mamon é uma palavra de origem hebraica e significa, literalmente, “dinheiro”, sendo muitas vezes personificada como uma divindade ou, como a demonologia preferiu, um demônio.

Referência da imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mamon

  

É muito comum entrarmos na internet e nos depararmos com influenciadores de economia e investimento fazendo seus augúrios a partir da interpretação dos presságios. Sobre a queda da China então – o alvo preferencial deles por representar a maior antagonista do livre-mercado – é quase que cotidiano. Estão prevendo a queda da China desde o começo dos anos 2000, mas como isso não acontece, já está virando uma profecia messiânica, quase como o apocalipse: pode não cair hoje, mas um dia cai, é inevitável.

Agradar o mercado é como agradar uma divindade: ele deve ser saciado. Ele também tem vontades próprias: se alegra, se enfurece, se preocupa, se anima... O economista lê seus presságios e nos ensina o que fazer para aplacá-lo e saciá-lo corretamente, pois sua fúria pode ser terrível, gerando desemprego, fome, miséria, empobrecimento e violência.

É assim, pelo menos, que eles se apresentam. E esse pensamento religioso, para ser mais aceito pelo mundo contemporâneo e seu criticismo, vem travestido de científico. Então, ao invés de se apresentarem como profetas, se apresentam como cientistas. E no lugar dos presságios, o que fazem são análises. Mas essas análises científicas são tão infalíveis quanto uma declaração pontifical ex cathedra ou a inerrância escriturística subvertendo a própria ideia da cientificidade de seu ofício. Não se enganem: ciência não é atividade inerrante! Quem se apresenta como inerrante é a religião! E não todas, é claro, mas principalmente aquelas que recusam a crítica e se voltam para o passado, em busca da segurança dogmática de seus princípios eternos e imutáveis.

Por isso que, logo no início, destacamos que nem todos os economistas são dessa forma. E é por isso também que cito um grande economista contemporâneo, o sul-coreano e professor no Reino Unido, Ha-Joon Chang. Em sua excelente obra Economia: modo de usar, logo nas primeiras páginas, o autor adverte o seguinte:

 

Em especial nas últimas décadas, as pessoas foram levadas a acreditar que, assim como a física ou a química, a economia é uma “ciência”, em que há apenas uma resposta correta para tudo; e assim, os não especialistas devem simplesmente aceitar o “consenso profissional” e parar de pensar no assunto.[1]

 

A conclusão é muito simples e muito racional: não existe uma única economia e nem uma única maneira de julgar a realidade econômica. Uma resposta única, pronta, definitiva, capaz de dar conta de explicar toda a realidade, não é ciência, mas religião. E se essa resposta vir acompanhada de uma explicação sobre uma entidade a-material, que toma as melhores decisões e que precisa ser aplacada, aí o que temos é idolatria. E se essa realidade for o dinheiro/Mamon, aí já caímos no campo da Goetia. Mas, felizmente, a economia não é isso. E o que ela é, afinal?

Sem dar spoiler da excelente obra de Chang, o autor não deixa de dar uma definição clara, crítica e muito perspicaz: “a economia é uma disputa política. Ela não é – e nunca pode ser – uma ciência; não há verdades objetivas na economia que possam ser estabelecidas independentemente de julgamentos políticos, e com frequência de julgamentos morais”[2]. E, se ela não é ciência, muito menos pode ser convertida em uma religião. O autor deixa uma pergunta fundamental, que deve ser feita sempre que uma análise política é realizada: “a quem isso beneficia?” Pergunta extremamente válida e pertinente, e que não é válida apenas para a economia. “A quem isso beneficia?”, a pergunta de Marco Túlio Cícero, é a questão que devemos fazer sempre que virmos alguém profetizando respostas infalíveis para o futuro. Só assim descobriremos de verdade os interesses políticos e ideológicos por trás dos ditos presságios, interpretações e profecias que são tão cruéis com os mais pobres, mas milagrosamente atendem sempre os interesses das elites que trasvestem e exibem habilmente, e porque não dizer, maquiavelicamente, seus interesses pessoais como se fossem interesses de todos.

 



[1] CHANG, Ha-Joon. Economia: modo de usar. Tradução de Isa Mara Lando e Rogério Galindo. 7º reimpressão. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2015, p. 16.

[2] Ibid, p. 409.


Comentários

Matheus Guima disse…
Texto preciso e magnífico!!! Diz muito sobre os "economistas" da classe atual. Certeiro professor, palmas.

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