As invasões bárbaras

Sobre as mudanças do mundo


Referência da imagem: https://incrivelhistoria.com.br/invasoes-barbaras-resumo/

A vitória recente de Donald Trump nos EUA, assim como grande parte da reorientação política das nações ditas desenvolvidas no mundo ocidental para a direita, assim como a ascensão da extrema direita mundial, está relacionada ao medo da imigração. Isto estava entre as promessas de campanha do atual presidente norte-americano e nós, brasileiros, já começamos a ver compatriotas serem deportados. No Reino Unido e no restante da Europa também presenciamos fenômeno semelhante. Na Alemanha, por exemplo, a AfD (alternativa para a Alemanha), partido de extrema direita, cuja bandeira é a deportação de imigrantes, já é o segundo colocado nas pesquisas¹. Um dos argumentos principais é a defesa da "identidade cultural e nacional", que estaria sendo perdida por causa da imigração. Será mesmo?

Ora, o nosso mundo sempre teve ondas migratórias, de modo que é praticamente impossível determinar a origem autóctone de um povo. Quando analisamos a história, desde a antiguidade, o que vemos é o movimento migratório de povos, até se fixarem em um lugar, que passam a chamar de "pátria", surgindo a partir daí, mitologias que visam justificar o domínio do território. Muitos desses fluxos migratórios foram responsáveis por mudanças radicais no mundo, com destaque para aquele que nós comumente chamamos de "Invasões Bárbaras".

O que é um bárbaro? Originalmente, tal termo era utilizado pelos gregos como forma de identificação do estrangeiro, daquele que não falava a língua grega e que o balbuciar, entendido pelo grego pela forma onomatopeica de um "bar, bar..." deu origem ao termo "bárbaro". Além da língua, o estrangeiro era visto como inferior culturalmente. Por isso a conquista de Alexandre era também compreendida como uma missão civilizatória, de levar a cultura superior aos incautos.

O romano, que se colocava como herdeiro do helenismo, também passou a utilizar o termo bárbaro para o estrangeiro. O que ele não contava é que, a partir do século IV, o ocidente passou por diversas ondas migratórias que levaram aos esfacelamento político e cultural do grande império mediterrâneo. Oriundos da regiões norte da Europa, acima das fronteiras do império, sobre os rios Reno e Danúbio, viviam os povos germânicos, formados por inúmeras nações, com línguas, costumes e religiões diferentes da dos romanos. Os motivos das migrações eram diversos: busca de lugares mais amenos; terras para cultivo; fuga de invasores violentos, como os hunos; segurança e refúgio etc. Tudo isso levou esses povos a fugirem de seu território original e buscarem auxílio dentro do território do império.


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Tais fluxos migratórios encontraram resistência dos romanos, que não queriam perder sua cultura e seu território, mas não teve jeito. "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura", sempre se mostra um ditado verdadeiro. Aos poucos, mas de forma insistente, tais incursões conseguiram conquistar territórios do antigo império que, mesmo forte militarmente, não conseguia guarnecer tão extensas fronteiras. Dessa forma, a unidade europeia produzida artificialmente pelos romanos se esfacelou, fragmentando-se em inúmeros pequenos reinos "bárbaros", conforme podemos ver no mapa abaixo.


Referência da imagem: https://www.todamateria.com.br/povos-barbaros/

Esses bárbaros, portanto, foram aqueles que vieram de fora e, nas palavras do filósofo italiano Gianni Vattimo, derrubaram as estruturas do mundo velho. Nesse sentido, o bárbaro não é aquele que o grego e o romano, assim como as nações dominantes hoje ainda insistem em chamar de o "diferente" ou o "inferior", mas aquele que chega de fora contra a nossa vontade e muda o mundo. E, já vou adiantando: esse processo é inevitável!

O mundo sempre foi marcado pelas invasões bárbaras. Lembremos: egípcios, quando dominados pelos hicsos, e depois gregos e, por fim, romanos; judeus, dominados pelos assírios e, depois, pelos gregos e, depois, também romanos; gregos dominados pelos romanos; romanos pelos germânicos etc. E, porque não dizermos também que os europeus foram os bárbaros dos povos originários da América e da África? Vieram como imigrantes e se estabeleceram de forma violenta. E, agora, no norte da América, acham que os novos imigrantes é que são errados. Querem esconder a grande verdade do mundo, percebida por Heráclito de Éfeso: tudo é devir. E isso não é só para o mundo físico, mas também para a história. Podemos resistir, mas ser humano sempre está em caminho pelo mundo, em busca de lugares em que possa viver melhor, com saúde, alimento e segurança. Se o mundo fosse justo e perfeito para todos, isso não seria necessário. Mas ele não o é. E, nesse caso, nada podemos fazer. O ser humano continuará migrando em busca de uma terra em que possa chamar de sua pátria.

A vitória de Trump representa esse esforço artificial de tentar conter a mudança do mundo. Já adianto que fracassará! Se há uma constante aqui, é a mudança e, como acertadamente escreveu Santo Agostinho em seu clássico "A cidade de Deus", o desejo de domínio e conquista.


Falarei, pois, da cidade terrena, senhora dos povos escravos e, por sua vez, dominada pela paixão de dominar.


Não é à toa que ele tem esbravejado que quer a Groelândia, o Canal do Panamá etc. É justamente esse desejo de conquista que faz com que povos explorados queiram buscar lugares seguros para viver. Ele pode fechar as fronteiras, deportar, fazer o que for, não vai adiantar. Podemos achar que dominamos no presente, mas a verdade é que não podemos impedir a mudança do mundo. E, as invasões bárbaras estão aí, mostrando que pode até demorar, mas que não existe império que dure para sempre.


¹https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/01/14/com-discurso-contra-imigracao-extrema-direita-faz-campanha-na-alemanha-usando-santinho-em-forma-de-bilhete-de-deportacao.ghtml

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