Minha Brasília amarela
O presidente “Cavalo
de Tróia”, o “Neomalufismo” e o país dos 30%
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1.
Introdução
Há
muitos anos, assistindo uma entrevista da antiga banda “Mamonas Assassinas” que
tanto alegrou os dias pueris de minha vida, ficou na memória uma resposta que o
vocalista Dinho deu para a pergunta: “Por que uma Brasília amarela?”, que foi a
seguinte, numa despretensiosa citação livre: “a gente tava pensando em qual
seria o carro mais brega que existia, aí alguém falou: Brasília amarela”.
Assistindo o presidente, montado a cavalo e conduzindo os seus apoiadores na
última manifestação de domingo em frente ao Alvorada, todos com a tradicional
camisa canarinho da CBF, não consegui resistir à comparação. Não há nada mais
brega que uma manifestação de bolsominions. E, os trezentos de Brasília? É a
maior piada pronta do gênero daqueles memes de expectativa x realidade, com o pretensioso
grupo se imaginando os espartanos liderados por Leônidas enquanto, na dura
realidade, temos uma Sara Winter e uns torcedores da seleção pançudos e
acabados que, após as apreensões dos notebooks e celulares pela PF, deve estar muito
mais parecidos com a genial e já clássica reunião criada de pelo humorista Thiago
Ventura, marcada pelo bordão: “um pouco mais”. Imagino a própria autointitulada
líder desse movimento que, apesar do nome trezentos deve contar com 10% desse
total, questionando a sua líder: “Então, para defender o nosso capitão e
combater o comunismo, temos que enfrentar cem milhões de brasileiros?” Que,
após uma breve pausa, responderia: “Um pouco mais...”
Pesquisando
sobre a etimologia da palavra “Brega”, me deparei com uma definição muito
interessante: “No interior da Paraíba, Pernambuco e Ceará, sinônimo de cabaré,
geralmente de baixa categoria”[1], o que deu origem à
expressão: “isso é roupa ou música de brega”. Essa definição se casa
perfeitamente com a de Ciro Gomes sobre a saída de Moro do governo, no debate
com o Amoedo na Globonews: “Ele que estava ali no lúmen, no lumpesinato, na luz
difusa do abajur lilás, no samba… De repente, só dezesseis meses depois ele
descobre que está cercado de prostitutas?”[2] Brasília é um ambiente
brega literalmente, de brega mesmo, conforme a definição dada acima. E, pelas
imagens que recebemos semanalmente das já ordinárias manifestações dominicais daquele grupinho amarelão (a cor tem que ser berrante para
aparecer bem), formado pelos apoiadores do presidente que ansiosamente o aguardam em frente ao Palácio da Alvorada, não tem como não
concordar com o Dinho de que nada é mais brega do que uma “Brasília amarela”.
2.
Contexto
O
objetivo desse post é lançar luz sobre o tema e, assim, tentar compreender um
pouco os interesses de quem deseja essa “Brasília amarela”. Para isso, temos
que compreender as forças políticas que se formaram em torno da figura do então
candidato Jair Bolsonaro, sobretudo no segundo turno da eleição e, entre essas,
quais que continuam apoiando o seu governo ainda hoje e os interesses por trás
desse apoio. Dessa forma, podemos destacar:
Os
olavistas, grupo político já analisado em outro post deste blog, que se
caracteriza pela defesa irrestrita dos “valores da Civilização Ocidental”,
compreendidos basicamente como a família, individualismo, propriedade privada e
cristianismo. Sua narrativa tem como característica negar todas as grandes
contribuições da modernidade e o mundo contemporâneo, para eles contaminado por
um mal a ser erradicado, denominado genericamente como “Comunismo”[3]. Nesse grupo ainda temos
muitos religiosos e conservadores que encontraram em tal pensamento uma identificação com suas próprias ideias restauracionistas, sem espaço hoje nos ambientes acadêmicos e políticos.
Um exemplo é o renascimento, por mais absurdo que pareça, do “terraplanismo” que representa, sobretudo, a negação do “sistema
copernicano”, marco das revoluções científicas da modernidade.
O
segundo grupo é o dos bolsominions e, aqui, não podemos nos enganar. Analisando
bem de perto, muitos destes não são olavistas e nem sabem o que pensa o
autointitulado “filósofo”. Por sinal, dentro do termo “Bolsominon”, se formos
mais precisos, encontraremos diversos outros grupos menores como religiosos
fundamentalistas, que podem ser pentecostais, neopentecostais, católicos ultraconservadores
e outros grupos cristãos, que aqui deixam suas diferenças de lado por um
objetivo político comum (muitos desses são olavistas); saudosistas da ditadura militar e antigos malufistas, que sentem
saudades de um governo que defenda a polícia na rua e repressão violenta; preconceituosos,
racistas e homofóbicos que consideram o “politicamente correto” como “mimimi” e
encontraram em Bolsonaro uma voz para suas ideias, hoje sem espaço na mídia, e uma
tentativa de retorno para um mundo em que poderiam se expressar livremente sem
serem recriminados pelas suas opiniões; e, por fim, conservadores de qualquer
espécie. Em suma: o bolsonarismo não é nada novo no Brasil. É simplesmente um renascimento
do malufismo dos anos 80 e 90, que não tinha acabado, só estava hibernando até ser
acordado pelos programas sensacionalistas e humorísticos que, em busca de
piadas e polêmicas, repetiam as frases do então deputado “exótico e sem papas
na língua” à exaustão. O “bolsonarismo”, portanto, é o malufismo dessa geração,
o que nos permite cunhar o termo “Neomalufismo”.
O
mercado, grupo político que se aliou ao Bolsonaro após a adesão de Paulo Guedes
à campanha presidencial e fez o então candidato mudar seus discursos da “água
para o vinho” para obter o seu apoio. Quem se lembra dos discursos do
presidente nos anos 90 lembra dele como um estatista/autoritário, saudosista do
Estado “forte” da ditadura e crítico do Neoliberalismo do FHC. Bolsonaro migrou
no espectro político para a direita “liberal na economia” para ter o apoio dos
empresários e a ponte entre seu governo e esse setor está no seu ministro da
economia, que assumiu o compromisso de levar a cabo todas as reformas econômicas,
administrativas, previdenciárias e tributárias que visam o sucateamento do
Estado e a diminuição dos direitos trabalhistas, iniciadas ainda no governo
Temer, mas que não conseguiram força e adesão por falta de apoio e legitimidade,
conseguida nas urnas em 2018. Esse grupo não é numeroso, mas tem dinheiro e
influência. Não podemos nos iludir: diante da pandemia do COVID-19, eles não
hesitarão em deixar morrer quantas pessoas forem necessárias para atender aos
seus interesses financeiros e, agora que ela saiu dos bairros nobres e chegou
nas periferias, não encontrarão mais nenhum entrave para a reabertura do
comércio: “sacrifique-se pela economia, ainda mais se for pobre!”
Por
fim, o grupo mais numeroso e que representou o ponto de desequilíbrio e
garantiu a vitória: o dos antipetistas. Entre estes, podemos destacar dois
grandes subgrupos: o antipetismo dogmático e o momentâneo. O primeiro, bastante
antigo e numeroso, sobretudo em São Paulo, sudeste e sul do Brasil, é um grupo
que não analisa as ações políticas das gestões petistas. Seu raciocínio é bastante
simples e se baseia na negação: se é do PT, sou contra! Vejam: não é um grupo
que questiona as ações do PT, eles apenas dizem não e ponto final,
independentemente se ela é boa ou trouxe resultados positivos para a sociedade.
Todos os olavistas e bolsominions são antipetistas dogmáticos, mas nem todos que
são desse grupo se enquadram nos dois primeiros. Muitos, por exemplo, votam
no PSDB e é isso o que garante a vitória desse partido nas eleições estaduais há
mais de 25 anos. Tendo o PT no segundo turno, eles naturalmente votarão contra,
sem pensar, independentemente do candidato ou partido político no pleito. O
antipetismo momentâneo, por outro lado, não é radicalmente contra o PT, sendo formado por pessoas que, por diversos motivos, estavam insatisfeitas com o governo, com destaque para a
crise que assolou o país depois de 2014, os acontecimentos políticos que
levaram ao Impeachment da presidenta Dilma em 2016, e a operação “Lava-jato”,
que denunciou um grande esquema de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo diversos
partidos políticos e dirigentes da estatal Petrobrás. Tal operação deu
notoriedade ao juiz Sérgio Moro, exaltado por diversas mídias como uma espécie
de “super-herói” do combate à corrupção e que, através de métodos midiáticos e
questionáveis, levou a prisão o ex-presidente Lula, causando uma grande mácula na
imagem do PT. Esse grupo faria de tudo para não haver outra gestão petista no
governo federal e, diante das opções que, literalmente, “sobraram”, muitos que
no primeiro turno não votaram no Bolsonaro, no segundo preferiram votar nulo ou
até mesmo votar “contra o PT” (sim, para muito, essa foi a justificativa). Cabe
destacar que o juiz Moro foi amplamente usado em campanha como escada, pelos candidatos,
que buscavam ligar sua imagem ao juiz e, assim, surfar na onda do combate à
corrupção. Na busca de aprovação e apoio desse grupo, Moro terminou por ser nomeado
ministro da Justiça do governo Bolsonaro. Recentemente deixou o governo
alegando interferência política na polícia federal, levando a famosa citação do
político Ciro Gomes já comentada acima. Muito antes da “Brasília amarela” do
título, esse grupo já queria uma “Paulista amarela”.
3.
O Projeto
Agora,
após um ano e meio de governo Bolsonaro, o cenário político mudou bastante. Dos
grupos enumerados acima, apesar de alguns poucos antipetistas ainda contarem
entre os apoiadores do governo, restaram basicamente os olavistas, os bolsominions
que não se arrependeram e o mercado. Muitos antipetistas abandonaram o governo
logo nos primeiros meses, com as denúncias de ligação com milícias, caixa dois,
o “Caso Queiroz”, manifestações antidemocráticas etc. Com a saída de Moro e a
denúncia de intervenção da polícia federal para proteger a família, grande
parcela de antipetistas que haviam permanecido, também debandaram de vez. O
presidente está tentando agradar o mercado de diversas formas para não perder o
apoio deste, se opondo abertamente até mesmo à Organização Mundial da Saúde
contra a quarentena diante da pandemia do COVID-19 e receitando remédios sem
eficácia comprovada, como forma de reabertura econômica. Enquanto Guedes
estiver à frente da pasta da economia, o Mercado ainda se sente seguro com a garantia
das reformas que lhe foram prometidas. Porém, o presidente está sendo
constantemente pressionado e se perder esse apoio, literalmente, fica manco.
Os
olavistas e os bolsominions hoje formam um único grupo que, apesar de plural, se
amálgama por um objetivo comum: manter o governo a todo custo! Por isso, apesar
dos memes sobre “o gado bolsonarista” serem engraçados (em especial o recente
do presidente tocando o gado a cavalo), eles nos levam a interpretação equivocada
de que este grupo é manipulado pelo presidente, quando o que ocorre é radicalmente
diferente.
Vamos
explicar: esse grupo se sentia excluído com os avanços democráticos e
progressistas das últimas décadas. Eles não acompanharam essas mudanças, pelo
contrário, nutriam profundo ressentimento por terem sido “deixados” de lado pela
sociedade que avançava em conquistas democráticas e direitos das minorias
oprimidas. Os olavistas, por exemplo, se queixavam de não encontrarem espaço nos
ambientes acadêmicos e, como justificativa, se apropriaram do conceito de “marxismo
cultural”. “A Universidade hoje, no Brasil, é dominada por Comunistas”, eles
dizem; “as escolas fazem doutrinação comunista”; “querem nos impor uma ‘ideologia
de gênero’”; “a mídia, a ciência e a cultura hoje são anticristãs” entre outras
coisas que fazem muito sentido na cabeça de um olavista. Por outro lado, os
bolsominions não olavistas, mas que também se ressentem dos avanços do mundo,
como “Neomalufistas” que são, não estão nem aí para corrupção, violência,
palavrões, uso da política para benefício familiar, preconceitos, xenofobia,
ignorância e outras coisas condenáveis. Só querem um governante para reproduzir
suas ideias, um governo que possam se identificar e, aqui entra o grande projeto
político desse grupo: um governo que, assim como a música dos Mamonas, faça
essa “Brasília amarela” estar de “portas abertas” para eles.
Sim,
eles têm um projeto político, como todos o têm, e isso não é condenável. Condenável
é o objetivo do projeto, que visa utilizar as instituições democráticas e a
legitimação dada pela eleição para realizarem, dentro do campo em que lhes
interessa, reformas sociais, culturais, religiosas e morais dentro da
perspectiva de “frear” os avanços democráticos que eles tanto condenam. Que outro
governante, por exemplo, entregaria uma secretaria de cultura e o ministério da
educação para um grupo ideológico que tem como objetivo, no mundo de hoje, de combater
o avanço do comunismo? Que outro governante entregaria a fundação palmares para
uma pessoa que é contrária ao movimento negro? A estratégia é sempre a mesma:
pegam olavistas com titulação, como uma espécie de “vingança” por não terem tido
reconhecimento acadêmico e social e as colocam nos alto-escalões do governo. Por
isso vemos um negro contra o movimento negro, que está lá para cumprir o papel
de mostrar que o governo não é racista e o movimento negro é vitimismo. O mesmo
acontece no ministério da cidadania, da mulher e dos direitos humanos: Tem uma
mulher, somente para dizer que o governo não é misógino, mas que é contra o feminismo,
para dizer que é um movimento vitimista. Esses políticos usam suas pastas para
promoverem verdadeiras reformas ideológicas, sociais e morais que contrariem os
avanços democráticos das últimas décadas. Essa é a estratégia política do governo
e os seus apoiadores permanecem, não por serem manipulados, mas porque em
nenhum outro governo eles teriam esse espaço. Por isso estão todos os domingos
em Brasília, vestindo camisas amarelas da CBF e defendendo a todo custo o
Bolsonaro: porque é o governo deles. É o governo dos 30%! Em nenhum outro eles teriam
tamanho espaço para concretização dos seus projetos e ambições políticas.
Escolheram o Bolsonaro porque ele aceitou esse papel e, tal como o “Cavalo de Tróia”,
trouxe na barriga todos esses grupos escondidos para invadirem e ocuparem Brasília.
Interessante observar a moral contraditória do candidato: era intervencionista,
mas migrou para o livre-mercado; e se diz católico hoje, mas se deixou batizar
e participou de diversos cultos com as lideranças neopentecostais, que também
trouxe para Brasília. O “Paris bem vale uma missa” do Henrique de Navarra se tropicalizou
como “Brasília bem vale um culto”.
4.
Conclusão
Os
“Trezentos de Brasília” não podem ser entendidos como um simples gado, bem como
as manifestações domingueiras em frente ao Alvorada. São apoiadores que querem
defender o governo porque é o governo deles. Bolsonaro foi o “Cavalo de Tróia”
que esses grupos utilizaram para entrarem Brasília e o governo federal é o
instrumento para realização dos seus projetos e ambições políticas. Desde a
nova república, o sonho democrático, os avanços pelos direitos e conquistas das
minorias, esse grupo tem estado à parte, murmurando contra o que viam na
televisão, se ressentindo contra o que aprendiam na escola e resmungando pela
sociedade que não concordavam. Tal qual um moderno dom Sebastião, sonhavam com
o retorno de Paulo Maluf que sairia do túmulo do ostracismo para reconduzi-los de
volta a Brasília e iniciarem uma nova cruzada contra os inimigos da
civilização, sendo os primeiros os “comunistas”.
Quando
viram o então deputado Bolsonaro, que gritava na TV tudo o que eles sonhavam e
guardavam em segredo, o elegeram como seu representante. Este, por sua vez,
aceitou esse papel e serviu como um “Cavalo de Tróia” para todos esses grupos
entrarem infiltrados em Brasília. Sob o verniz do combate a corrupção,
liberdade econômica e antipetismo, muitos o elegeram sem a consciência de que
ele levava na barriga o olavismo, o neomalufismo, fundamentalistas cristãos e antidemocráticos
saudosos da ditadura. Muitos, conscientes na época, tentaram avisar. Chegou a
ganhar força o movimento “Ele não”, mas não foi suficiente. A aparência sempre
é mais bela que a realidade. Fica a lição de sempre se lembrar nas eleições que
todo “cavalo de madeira” também tem a “cara de pau”.
Os
bolsonaristas vão marchar até o fim para defender esse governo dos 30%. Afinal,
a última vez que sentiram isso foi na ditadura militar e desde a nova república,
Brasília era ou azul do PSDB ou vermelha do PT. Agora estão cantando como o
clássico “Pelados em Santos”: “Minha Brasília amarela, tá de portas abertas”,
com uma pequena e imperceptível modificação na letra “pra mode a gente se ARMAR”
e, censuram o resto, já que vai contra a moral e os bons costumes. O que
queriam, que parecia até quatro anos atrás impossível, conseguiram: poderem finalmente
chamar Brasília de “minha”. Atenção: minha! Não sua e nem nossa. É o projeto
pessoal deles, que não tem espaço para todos e todas. No país dos 30%, eles não
estão preocupados com todo mundo, vide a negligência e desinteresse com as mais
de trinta mil mortes provocadas pelo COVID-19. É bom avisá-los que o amarelo
não é uma boa cor para esconder o vermelho do sangue que estão derramando, nem
o cinza das queimadas da Amazônia e da tristeza dos lutos que provocaram com
uma política tão nociva de saúde. E daqui a quatro anos, se esse governo durar até
lá, quando qualquer tentativa de sustentação do presidente ruir e assim ficar bem
nítido para todo mundo porque o malufismo estava no limbo antes de renascer como
bolsonarismo, do qual nunca deveria ter saído, tendo agora como companhia o
olavismo e todas essas ideologias nefastas, talvez a única cor que sobre para
eles seja a cor da vergonha...
[1] http://blognovaalexandria.blogspot.com/2014/09/do-brega-etimologia-e-polissemia.html
[2] https://todoscomciro.com/news/bolsonaro-luz-abajur-lilas-moro/
[3] https://reflexoesdoprofessorfred.blogspot.com/2020/05/a-quarentena-do-comunavirus.html
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