Religião e Doutrina

 A compaixão de Jesus: quando a religião se torna instrumento de intolerância e de morte.

Referência da imagem: https://imagensbiblicas.wordpress.com/2008/05/29/jesus-e-a-mulher-adultera/

Os cristãos sempre gostam muito de promover através de frases como "Deus é amor" ou "Deus é perdão", porém essas frases sempre vêm acompanhadas de um "você precisa aceitar Jesus", muitas vezes acompanhado de ameaças ou em situações delicadas, como: "você aceita Jesus como seu Senhor e Salvador?", em um momento de doença ou se insegurança, em que a pessoa por temor do inferno experimenta a misericórdia à força. De fato, não é incomum na história do cristianismo figuras como a do "Cristão-Fariseu", que é aquele que segue as reis religiosas e que, apesar de toda orientação de Jesus sobre o não julgar e sobre a humildade, considera-se mais santo e imaculado que as outras pessoas. Da mesma forma, temos a figura do "Cristão-Inquisidor", aquele que se considera tão guardião da doutrina, que se julga apto para condenar todos os demais como hereges ou pecadores.

Mesmo que essas deturpações do cristianismo: o farisaísmo e o inquisidor estivessem sempre presentes como tentações na história da religião, no Brasil contemporâneo, essas figuras se tornaram muito presentes e comuns, principalmente por causa da teologia da batalha espiritual e da guerra cultural. Em redes sociais e plataformas como o Youtube, por exemplo, em uma breve pesquisa sobre algum tema específico, sempre encontramos um inquisidor disposto a farejar o pecado e condená-lo. Por isso, a perícope da mulher adúltera, de João 7,53 - 8,11 é tão importante e tão atual. Segue o texto, na tradução da Bíblia de Jerusalém:


E cada um voltou para sua casa. Jesus foi para o monte das Oliveiras. Antes do nascer do sol, já se achava outra vez no Templo. Todo o povo vinha a ele e, sentando-se, os ensinava. Os escribas e os fariseus trazem, então, uma mulher surpreendida em adultério e, colocando-a no meio, dizem-lhe: "Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?" Eles assim diziam para pô-lo à prova, a fim de terem matéria para acusá-lo. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia no chão com o dedo. Como persistissem em interrogá-lo, ergueu-se e lhes disse: "Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!" Inclinando-se de novo, escrevia no chão. Eles, porém, ouvindo isso, saíram um após outro, a começar pelos mais velhos. Ele ficou sozinho e a mulher permanecia lá, no meio. Então, erguendo-se, Jesus lhes disse: "Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?" Disse ela: "Ninguém, Senhor". Disse, então, Jesus: "Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais".


Esse trecho, do ponto de vista da ciência bíblica, é polêmico, pois não se encontra nos manuscritos mais antigos do evangelho joanino. Muitos acreditam ser um enxerto posterior. Porém, muitos atestam a sua autenticidade e canonicidade. De fato, não é um texto que parece o estilo de João (está muito mais semelhante ao estilo dos sinóticos, em especial de Lucas). Mas, sua inserção muda tudo! Aqui não queremos discutir esses aspectos teológicos, mas o significado profundo desse texto, importância e o que ele representou e representa para a nossa compreensão do cristianismo.

Independentemente da canonicidade do texto, não podemos negar que sua inserção no Evangelho nos diz muito sobre a personalidade e atuação de Jesus. Da mesma forma, ele nada contradiz. Em outras passagens, encontramos Jesus acolhendo pecadores e pecadoras e dando uma nova interpretação da lei. Da mesma forma, Jesus ser colocado à prova pelos fariseus também é recorrente nos sinóticos. Porém, esse texto tem algo a mais, que acrescenta novas camadas de interpretação e profundidade na elucidação do mistério de Cristo, principalmente nos paralelos do Evangelho de João com a revelação de Deus no Êxodo.

De início, vemos uma despedida: "e cada um voltou para sua casa". Jesus, porém, foi para o monte. O simbolismo do monte representa, mormente, o local de encontro e revelação de Deus. Não podemos nos esquecer de Ex 19, 2-3: "Israel acampou lá, diante da montanha. Então Moisés subiu a Deus". O texto continua demonstrando que a atuação de Jesus começou logo cedo, antes do nascer do sol, que podemos traçar outro paralelo com a revelação de Ex 19, 16: "ao amanhecer, desde cedo, houve trovões, relâmpagos e uma espessa nuvem sobre a montanha". E, por fim, da mesma forma que Moisés foi enviado para ensinar o povo acampado, Jesus ensinava o povo que vinha a ele. Mas os paralelos continuam, de forma muito mais interessante.

O texto apresenta uma mulher trazida por esses fariseus e inquisidores, surpreendida em flagrante adultério, e colocam Jesus à prova, apresentando a Lei de Moisés, que manda apedrejar a adúltera. Vemos aqui, uma deturpação muito conveniente, é claro. Em Lv 20, 10 está escrito: "o homem que cometer adultério com a mulher do seu próximo deverá morrer, tanto ele como a sua cúmplice". Aqui, como para ilustrar o patriarcalismo presente desde a origem na interpretação doutrinária, apenas a mulher é levada à julgamento. Não sabemos o que aconteceu com o homem mas, da mesma forma como acontece no presente, ele não foi exposto e humilhado publicamente. E, para coroar a cena, eles questionam maliciosamente Jesus: "Moisés nos ordena apedrejar. E tu, o que dizes?"

Testar, provar, são características do inquisidor, que querem pegar a heresia no pulo. É própria da ação diabólica colocar à prova, tentar, e aqui não é diferente. Esses fariseus e inquisidores querem testar a doutrina de Jesus e apresentá-lo como um herege, que contraria as doutrinas eternas e imutáveis ditadas diretamente por Deus para Moisés, afinal foram escritas em "pedra" e devem, portanto, permanecer inalteradas até o fim.

Sobre as tábuas da Lei, precisamos antes fazer uma investigação sobre a cristologia do Evangelho de João. Neste evangelho, em diversas passagens, Jesus se apresenta como "Eu sou". Cito alguns exemplos: "Eu sou o pão da vida" (Jo 6, 35), "Eu sou a luz do mundo" (Jo 8, 12),  "Em verdade, em verdade, vos digo: antes que Abraão existisse, Eu sou" (Jo 8, 57). Muitos autores encontram aqui um paralelo com Ex 3, 14: "Disse Deus a Moisés: 'Eu sou aquele que é'. Disse mais: 'assim dirá aos israelitas: 'EU SOU me enviou até vós'". Além dessa semelhança com o nome divino, nessa passagem da mulher adúltera temos um outro paralelo com a revelação, também tão interessante quanto: "Jesus, inclinando-se, escrevia no chão com o dedo", enquanto no Êxodo, temos: "quando ele terminou de falar com Moisés no monte Sinai, entregou-lhe as duas tábuas do Testemunho, tábuas de pedra escritas pelo dedo de Deus" (Ex 31, 18). Ambos escreveram com o dedo, um no chão e outro nas tábuas de pedra.

Jesus nada respondeu. Porém, o inquisidor continua perguntando, a exemplo desses debatedores de internet, que gostam de pautar o debate. Jesus, porém, não quis discutir doutrina; não quis discutir se a interpretação de Moisés está correta ou não. Indo mais além, não quis discutir teologia, filosofia ou religião. Ele apenas disse: "Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!"

No final, todos vão embora, começando pelos mais velhos. Afinal, quanto mais idade, mais pecados cometidos. No final, Jesus despede a mulher dizendo: "Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais". Essa advertência final "não peques mais" é, hoje, amplamente repetida pelos fariseus contemporâneos, porque ao contrário do que Jesus acabou de mostrar com a cena, querem desesperadamente uma letra para se apegarem. Por isso, precisamos brevemente elucidar essa compreensão de pecado.

Do ponto de vista doutrinal, temos o Catecismo da Igreja Católica (CIC) como uma formulação dogmática que explica o pecado como "uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens" (CIC 1849). Ainda, segundo o Catecismo: "A raiz do pecado está no coração do homem" (CIC 1853), e conclui: "os pecados provocam situações sociais e instituições contrárias à bondade divina. As 'estruturas do pecado' são a expressão e o efeito dos pecados pessoais. Induzem suas vítimas a cometer, por sua vez, o mal. Em sentido analógico, constituem um 'pecado social'" (CIC 1869). O catecismo reconhece, portanto, o pecado como uma falta para com o amor de Deus e para com o próximo. Por estar enraizado no coração do ser humano, o pecado faz parte da nossa condição: "quando o homem olha para dentro do próprio coração, descobre-se inclinado também para o mal, e imerso em muitos males, que não podem provir de seu Criador, que é bom", explica a Gaudium et Spes (p. 19). Mas, se o pecado está dentro do ser humano e é parte de sua condição, o que pode significar a ordem de não mais pecar?

Donna Singles, na obra A glória de Deus é o homem vivo, ao explicar a doutrina do mal e do pecado em Santo Irineu, como elementos constitutivos da condição humana, nos diz: 


No fundo, a condição pecadora que sentimos de modo tão vivo não seria simplesmente a convicção, presente no homem, de ter sido criado para algo que o ultrapassa? O homem reconhece que há algo nele que não combina muito bem com Deus. Ele não sabe bem por que, mas sente profundamente a contradição em seu ser: ao mesmo tempo em que não se harmoniza completamente com Deus, ele sabe que foi feito para Deus. Parece-me que, ao dizer isso, não estou longe da posição de Irineu. (p. 170)


Dessa forma, à luz do que foi exposto até aqui, temos a compreensão de que o pecado é sempre uma possibilidade presente no ser humano, mas não é a sua vocação original. Na linguagem do grande teólogo Karl Rahner, o pecado "constitui realmente existencial permanente e jamais superável nessa única história temporal" (p. 131). Quando Jesus, portanto, afirma na passagem que estamos analisando que "quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!", ele afirma a verdade mais profunda da nossa condição: somos pecadores e, portanto, ninguém deveria julgar. Ao julgarem a adúltera, os homens com as pedras nas mãos cometem a maior das idolatrias, pois se colocam no lugar de Deus em três sentidos: no julgamento, na condenação e na pretensão de tirar a vida da mulher. De nada adianta aos seres humanos pregarem a misericórdia, enquanto apontam o dedo para o pecado dos outros.

O fariseu e o inquisidor se colocam no lugar de Deus quando, pela pureza radical da doutrina, acreditam estarem fazendo o bem julgando e condenando as heresias e apontando os pecados dos outros, quando o modo de agir de Jesus é bem diferente. Um dos textos mais belos do cristianismo primitivo, a Carta a Diogneto nos dá uma belíssima definição desse modo de agir de Deus ao enviar Jesus:


Foi esse que Deus enviou. Talvez como alguém poderia pensar, será que o enviou para que existisse uma tirania ou para infundir-nos medo e prostração? De modo nenhum. Ao contrário, enviou-o com clemência e mansidão, como um rei que envia seu filho. Deus o enviou, e o enviou como homem para os homens; enviou-o para nos salvar, para persuadir, e não para violentar, pois em Deus não há violência. Enviou-o para chamar, e não para castigar; enviou-o, finalmente, para amar, e não para julgar. (p. 25)


Com essa explicação, caem por terra qualquer pretensão do fariseu e do inquisidor. Em Deus não há violência e tirania. Ele enviou Jesus para amar, e não para julgar. Nesse sentido, a orientação: "não peques mais" é a orientação do que a mulher pode ser, se conseguir tomar consciência, muito mais. "Todo aquele que segue Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem" (Gaudium et Spes, p. 53)

Os fariseus, com suas pedras não mão, por outro lado, já representam aqui o contrário. Eles, que até então não tinham consciência de suas próprias condições. E, diante de tal orgulho, que se coloca no lugar de julgar o próximo, preferem ir embora do que aprender. A maior lição do dia, eles não tiveram. E aqui chegamos no ponto mais misterioso, mas que é central e mais original dessa passagem.

O gesto de Jesus, de estar escrevendo no chão, é um gesto sem explicação. Pretendemos aqui fornecer apenas uma chave de leitura, utilizando do método comparativo que fizemos até então. Moisés desce do monte com a Lei escrita em tábuas de pedra, demonstrando que a Lei deve ser rígida, sólida e imutável. Porém, o que vimos depois foi trágico: a lei foi desobedecida e, pior, serviu para legitimar inúmeras injustiças em nome da mesma lei. Os fariseus, com pedras na mão, nada mais representam do que essa lei dura, que quando é também duramente interpretada, só produz fanatismos (rigidez) e, até mesmo, a morte. Jesus, diante desses homens, começa a escrever no chão. É o dedo de Deus, que se fez humano, mostrando que a lei, a doutrina, deve existir, mas ela precisa também do chão, da realidade, pois a nossa condição frágil, a vida é difícil e o mundo não é preto e branco como muitos querem fazer imaginar. Se observarmos, ele continua escrevendo no chão, mesmo após as perguntas para pô-lo à prova, quase que como quisesse indicar que a lei precisa ser encarnada no chão, onde pisamos, vivemos, com nossos medos, anseios, dificuldades. A lei é para orientar, mas ela precisa estar escrita no chão das nossas vidas, que é por onde trilhamos nossos caminhos. A lei, escrita na pedra, leva à morte. Ela, escrita na nossa realidade, leva à vida. A pedra é sinônimo de dureza e intolerância. No chão ela é flexível e misericordiosa. Aqueles, apegados à sua doutrina e aos seus valores eternos e imutáveis, estavam preparados para matar em nome dessa verdade. A lei, escrita no chão da vida, não julga, mas sempre dá uma nova oportunidade para o ser humano. Essa é a essência da doutrina cristã.

O apego demasiado à doutrina produzem o fariseu e o inquisidor, figuras recorrentes no cristianismo, sempre dispostas a apontar o erro e o pecado nos outros. Jesus nos convida a ir além, não olhando para cima, mas para baixo, a partir da nossa vida; e para dentro, a partir da nossa condição. Em vão a doutrina será escrita em pedra, se não souber dialogar com a vida. Quantos ainda são humilhados, condenados, julgados, em nome da verdade e da doutrina eterna. A perícope da mulher adúltera, pode não estar nos manuscritos mais antigos, mas dialoga perfeitamente bem com o propósito do cristianismo e, mesmo com diferenças de estilo, com o restante do evangelho de João. No capítulo seguinte (9), na cultura do cego de nascença, outro julgado pelos guardiões da doutrina, Jesus faz uma memorável, porém seríssima, advertência:


Então disse Jesus: "Para um discernimento é que vim a este mundo: para que os que não veem, vejam, e os que veem, tornem-se cegos". Alguns fariseus, que se achavam com ele, ouviram isso e lhe disseram: "Acaso também nós somos cegos?" Respondeu-lhes Jesus: "Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas dizeis: 'Nós vemos!' Vosso pecado permanece". (Jo 9, 39-41)



REFERÊNCIAS
 
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. 2ª impressão, São Paulo: Paulus, 2003.
CARTA A DIOGNETO. In: Padres Apologistas. Tradução Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin. São Paulo: Paulus, 1995
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Edição típica vaticana. São Paulo: Loyola, 2000.
GAUDIUM ET SPES. Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo de hoje. 12ª ed. São Paulo: Paulinas, 2002.
RAHNER, Karl. Curso fundamental da fé. Tradução de Alberto Costa. São Paulo: Paulus, 1989.
SINGLES, Donna. A Glória de Deus é o homem vivo: a profissão de fé de Santo Irineu. Tradução de Tiago José Risi Leme. São Paulo: Paulus, 2010.

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