Religião e Política
A indignação de Jesus: quando a religião e a política se unem num projeto de morte.
Podemos fazer inúmeras
críticas ao governo Bolsonaro, mas nenhuma é tão séria quanto o desprezo que
esse governo tem pela vida. Analisando a pandemia do COVID-19, o Brasil hoje tem
687.483 óbitos confirmados[1], sendo que 400.000
poderiam ter sido evitados, com medidas de distanciamento mais sérias e se o
governo não tivesse sido negligente na compra da vacina[2], lembrando que o distanciamento
social e as medidas de prevenção chegaram a ser desestimuladas pelo presidente
e seus apoiadores. Quando anunciou que o seu governo também não teria espaço
para nenhum tipo de ativismo, já deixou bem claro a forma como trataria essa
questão, o que os dados recentes também mostram com bastante clareza: na última
década, o Brasil alcançou a triste marca de ser o país que mais mata ativistas
ambientais: 342 assassinatos entre 2012 e 2021, sendo que somente no ano
passado, foram 26 ambientalistas assassinados[3]. Não podemos deixar de
destacar também o retorno do Brasil ao mapa da fome da ONU[4], que segundo os dados mais
recentes, a fome crônica já atinge 4,1% dos brasileiros. Tal situação não pode
ser colocada na conta da pandemia, como os defensores do governo insistem em
dizer, já que o COVID teve escalas globais e diversos países fizeram lockdowns
mais severos que o Brasil e, mesmo assim, a nossa situação está pior que a
média global[5].
Assim, diante de tantos
religiosos cristãos apoiando esse governo, torna-se necessário cada vez mais
mostrar como esses resultados estão distantes do que o cristianismo prega de
fato. Poderíamos pegar inúmeras passagens no Evangelho, mas aqui vamos nos
deter numa análise detalhada de um texto em que Jesus se deixar tomar pela indignação
diante daqueles que colocam o ser humano em segundo lugar, a perícope do
Evangelho de Marcos, capítulo 3, versículos 1 ao 6. Vamos para o texto, na
tradução da Nova Edição Pastoral:
Jesus entrou de novo na sinagoga, e havia aí um homem com a mão paralisada. E ficavam de olho para ver se Jesus iria curá-lo em dia de sábado, e assim poderem acusá-lo. Jesus disse ao homem da mão paralisada: “Levante-se aqui para o meio”. E lhes perguntou: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou matar?” Mas eles nada respondiam. Então, lançando sobre eles um olhar de indignação e tristeza, por causa da dureza do coração deles, Jesus disse ao homem: “Estenda a mão”. Ele a estendeu e sua mão ficou curada. Logo que saíram daí, os fariseus começaram a consultar os herodianos sobre Jesus, para encontrarem algum modo de matá-lo.
A cena é bastante
conhecida e também está presente nos Evangelhos de Mateus e Lucas, mas em
Marcos encontramos essa cena com uma força política singular. Jesus entra na
sinagoga e vê ali um homem com uma doença, que provocava a sua exclusão. Porém,
Jesus era observado pelos presentes. O texto indica dois grupos: os fariseus,
palavra que significa “separados” e eram extremamente religiosos, observando de
maneira rigorosa a Lei de Moisés, da qual eram cumpridores exímios e, por isso,
para eles ela estaria acima de tudo. Estes, em nome dos valores religiosos,
observavam Jesus com um olhar cirúrgico, para ver se este iria descumprir um
dos mandamentos da Lei de Deus e assim poderem acusá-lo.
O outro grupo presente é
o dos herodianos, grupo políticos composto pelos funcionários e apoiadores de
Herodes Antipas, filho do Herodes do Grande (que governava toda a Judéia na época
em que Jesus nasceu e mandou matar os inocentes), e que governava a Galileia.
Ele fazia um governo tão pró-império romano que chegou a fundar uma nova
capital, Tiberíades, em homenagem ao imperador romano da época, Tibério.
Atualizando uma brincadeira do frei Carlos Mesters no livro Com Jesus na
contramão, seria o equivalente a Bolsonaro renomear Brasília como Trumpnópolis.
Herodes também mandou decapitar João Batista, que fazia severas críticas ao seu
governo e por ter se casado com a mulher do seu irmão.
Ambos grupos, fariseus e
herodianos, representam grupos políticos que se alternam de nome na história,
mas estão sempre presentes. Os fariseus representam a corrupção da religião,
que se converte em legalismo e apego ao passado; os herodianos, na defesa de
interesses políticos de uma elite que se beneficia ao custo da exploração dos
pobres. E o texto bíblico mostra que o perigo aumenta quando esses dois grupos
se unem.
Podemos ver nesse texto uma síntese da missão de Jesus: ele veio para acolher - trazer para o centro - quem estava à margem, mesmo que isso custe ir contra o legalismo religioso e as suas tradições. Sua fala para o homem da mão paralisada “levante-se aqui para o meio” é radical e revolucionária. Radical, porque vai na raiz do que existe de mais autêntico na mensagem bíblica, que é o lugar de destaque do ser humano. Revolucionária, porque questiona profundamente as estruturas de dominação da nossa sociedade. O cristianismo é uma religião encarnada, não podemos esquecer. Para os cristãos, Deus se fez homem em Jesus e o gesto de trazer o homem “para o meio” é recolocar o ser humano no seu devido lugar, que havia sido substituído por tradições e princípios caducos. A atitude farisaica faz o contrário: coloca a lei e as tradições religiosas acima do ser humano a ponto de justificar, até mesmo, a exclusão. De forma semelhante, a política herodiana trabalhava pela imposição do medo, a fim de sustentar a dominação de Herodes e os interesses políticos e econômicos do império. O que é interessante observar, é que os fariseus e os herodianos eram grupos que divergiam, mas uma coisa mais forte foi capaz de uni-los: o interesse em matar Jesus.
Jesus lança um desafio:
“É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou matar?” A
lei religiosa foi criada para o ser humano e não o contrário. Se a prática da
lei produz a morte do ser humano, sua exclusão, seu domínio – em suma, se ela
tira o ser humano do meio para colocá-lo à margem – então ela deixa de ser
religiosa e torna-se comprometida com o mal. Os fariseus estavam cegos para
isso: a defesa das tradições, dos seus valores morais, das leis religiosas
endureceu o coração deles. E aqui vemos que, para Deus, a verdadeira doença do
ser humano, diferentemente da compreensão dos fariseus que se importavam com a
paralisia das mãos, dos pés, com a cegueira ou com a pele, é o coração
endurecido. Pessoas com o coração endurecido olham para o outro e só veem o
pecado e a maldição. Diante do desafio, eles nada respondem e, por isso, Jesus
lança sobre eles um olhar de indignação e tristeza porque sabia que um coração
endurecido só é capaz de produzir a morte. Tanto que os fariseus e os
herodianos, diante da cura e da inclusão daquele homem, se incomodaram mais com
a desobediência ao princípio religioso e com o risco que isto poderia causar à
sociedade. “E Deus acima de todos!” Teria sido o grito farisaico, quando o Deus
do cristianismo se rebaixa ao nosso nível e se torna nosso irmão e companheiro.
Os fariseus e os
herodianos estão presentes mais do que nunca em nossa sociedade, mas vestindo
novas roupagens, até mesmo cristãs. Os fariseus são os religiosos comprometidos
com a lei, as tradições, os valores. Usam a lei religiosa para colocar as
pessoas à margem da sociedade e se consideram piedosos e exemplos. Os
herodianos se modernizaram com a figura de políticos e investidores ricos e
poderosos, comprometidos com a manutenção da sociedade injusta e desigual da
qual se beneficiam e no combate às concepções que poderiam ameaçar seu poder
político. O projeto de Jesus vai contra o interesse desses grupos, que no fim
estão comprometidos com a morte. Seu projeto é comprometido com a centralidade
do ser humano e, por isso, ameaça severamente os interesses desses grupos. E
hoje eles mais uma vez se unem e conspiram contra o projeto de Jesus!
A cegueira do coração
deles impedia de ver o que realmente importa para Deus. E hoje, a cegueira do
coração de muitos religiosos mais uma vez também impede de enxergar o que
realmente importa. Temos dois projetos em voga: um de inclusão, de direitos, de
uma tentativa de construção de uma vida melhor. E outro de morte, de violência,
de exclusão, de fome. Em um, a vida vem antes dos interesses políticos,
religiosos e econômicos. No outro, a vida humana vem depois. Para este projeto,
não importa a fome, a miséria, a violência e a morte, se os interesses dos
herodianos e dos fariseus estiver sendo atendido. O nome de Deus também nunca
foi tão usado como está sendo agora, por isso essa reflexão é tão necessária.
Afinal, qual dos dois projetos está mais próximo do de Jesus e de seu chamado:
“levante-se aqui para o meio”? Pode parecer parcial, mas tudo na vida é parcial
e tem lado. Eu tenho lado e Jesus também tinha, assim como os fariseus e os
herodianos. O desafio novamente é posto: “fazer o bem ou fazer o mal? Salvar
uma vida ou matar?” E, se muitos religiosos conseguirem vencer a dureza de
coração, um dia poderão entender se realmente estarão sendo, de fato, cristãos
ou fariseus.
[1]
Segundo o site https://covid.saude.gov.br/.
[2] https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/06/29/brasil-covid-19-mortes-pedro-hallal.htm.
[3] https://cultura.uol.com.br/cenarium/2022/10/01/203045_brasil-lidera-entre-as-nacoes-que-mais-matam-ativistas-ambientais-sao-342-assassinatos-em-10-anos.html.
[4] https://www.brasildefato.com.br/2022/09/14/mapa-da-fome-pesquisa-mostra-onde-estao-as-pessoas-em-inseguranca-alimentar-no-pais.
[5] https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2022/07/06/brasil-volta-ao-mapa-da-fome-das-nacoes-unidas.ghtml.
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