Brasil acima de tudo, Deus acima de todos e o mercado acima de Deus!



Reflexões teológicas sobre um certo presidente “Messias”

Coronavírus: "E daí? Lamento", diz Bolsonaro sobre recorde de mortes
Crédito da imagem: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/04/28/sou-messias-mas-nao-faco-milagres-diz-bolsonaro-sobre-recorde-de-mortes.htm
Recentemente, recebi pelo WhattsApp um link de um vídeo intitulado “Deus fala com Bolsonaro através da ministra Damares”. Não assisti o vídeo inteiro, por isso, não posso julgar o seu conteúdo, apesar de não precisa muito para deduzir se tratar de um conteúdo apologético para o presidente. Mas, já que o assunto é sobre revelação, e para nós cristãos Jesus é a revelação plena de Deus, nada melhor do que conferir o que o próprio senhor Jesus nos ensinou sobre como devem ser as nossas atitudes diante do juízo, segundo o Evangelho de Mateus “Vinde, abençoados por meu Pai! Tomai posse do Reino preparado para vós desde a criação do mundo. Porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, fui peregrino e me acolhestes, estive nu e me vestistes, enfermo e me visitastes, estava na cadeia e viestes ver-me” (Mt 25. 34-36).
Essa semana, quando confrontado pela informação de que o número de mortos no Brasil ultrapassou os da China, o presidente respondeu: “E daí, sou messias mas não faço milagre”. De fato, milagres não faz e ninguém espera isso mesmo. Mas, diante do nosso povo faminto por causa da pandemia, o senhor quis dar um auxílio de R$ 200 apenas e, se o valor foi triplicado, mesmo sendo pouco, isso não se deve ao presidente, mas à pressão do congresso visto pelos seus adversários como um “inimigo que quer tanto prejudicar o presidente”. Diante de tantos enfermos, vemos um “E daí”, resposta que demonstra uma cruel indiferença para as mortes, sobretudo dos idosos, que nem podem ser velados e receberem uma despedida digna de seus entes queridos. É curioso como uma das suas bases de apoio seja uma bancada dita “Evangélica”, quando vemos claramente em seu governo uma “entidade” acima dos preceitos de Deus: o mercado! É justamente nesse ponto que o cristão deveria se distinguir da posição desse governo: Se Deus está acima de todos, ele deve estar acima do mercado, e não o contrário.
“Então Jesus lhes disse: ‘Pois dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’” (Mt 22.21). Ora, diante da efígie cunhada na moeda, que pertence a César, Jesus não está apenas ensinando que devemos pagar o imposto, mas fazendo uma reflexão muito mais profunda. A moeda tem a face de César, título do imperador romano, mas o ser humano, feito segundo a imagem e semelhança de seu criador, traz a face de Deus em seu ser e, por isso, está acima da Moeda. Seguindo os preceitos de Jesus, penso que a mensagem cristã, diante de tantos posicionamentos econômicos durante a pandemia, não deve ser outra, senão: “Não, senhor Junior Durski, não está tudo bem morrerem 7 mil! Não, senhor Alexandre Garcia, respiradores não são excessos de gastos! Não, senhor Rodrigo Constantino, nossos avós não devem se sacrificar pela economia! Não, senhor presidente Bolsonaro, não existe ‘E daí’ quando morrem mais de cinco mil pessoas! Os senhores estão colocando a moeda acima do ser humano e, se de fato sou cristão, nada posso antepor à face de Deus!” O deus mercado é o ídolo mais esfomeado que existe e, por isso, exige sempre sacrifícios de sangue: sejam as crianças de rua, sejam os mais pobres, sejam os nossos idosos. A sua fome é insaciável e, se você está disposto a pagá-la, está adorando o deus errado!
“Se compreendêsseis o que significa: quero misericórdia e não sacrifícios, não condenaríeis os inocentes” (Mt 12.7). Mas não compreendemos... Preferimos ceder à tentação do poder sobre os reinos da terra (Mt 4.8) achando que estamos fazendo a obra de Deus. Esquecemos do longo e esclarecedor discurso do Senhor Jesus aos escribas e fariseus, os líderes religiosos do povo daquela época (e, muitas vezes, da nossa também): “Praticam todas as ações para serem vistos pelos outros. Por isso alargam as faixas de pergaminho e alongam as franjas de seus mantos. Gostam de ser chamados de mestre pelo povo. Mas vós, não vos deixeis chamar de mestre, porque um só é vosso mestre, e todos vós sois irmãos” (Mt 23.5-8). E o Senhor conclui de maneira magistral, ensinando como todo líder deve ser: “O maior entre vós seja vosso servo” (Mt 23.11).
Finalizo essa reflexão sem recorrer ao eufemismo “pequena” (porque já se alongou até demais) retomando a ordem de Jesus: “O maior entre vós seja vosso servo”. Dentro de uma república, o presidente é o maior cargo e, portanto, deveria ser o nosso maior servidor. Não é à toa que chamamos hoje os funcionários públicos de servidores, pois deveriam servir. Aqui chamo a atenção do presidente para a sua função: servir o seu povo. Parece que ele se esqueceu disso. Está lá, até agora, servindo ao mercado! Ou será que na campanha ele omitiu da parte final do seu slogan: “O mercado acima de Deus”? Também gostaria de lembrar aos religiosos que, não sei por qual razão, escolheram apoiar um presidente que em toda a sua vida política defendeu a tortura e torturadores (no discurso do impeachment da presidente Dilma até fez uma homenagem a um), lembrando que Jesus também foi torturado e morto como criminoso pelas lideranças religiosas da sua época. Não adianta legitimar alguém com discursos de que: “Deus o escolheu” ou “Ele foi ungido”. Nosso senhor nos ensinou que o critério é outro, muito mais prático e palpável: “É pelos frutos que os conhecereis” (Mt 7.20), e até agora os frutos foram amargos e difíceis de digerir. “E daí” foi apenas a última das inúmeras pérolas terríveis pronunciadas pelo presidente (ou alguém esqueceu “do furo”). “São palavras”, os defensores dizem; “vocês pegam muito no pé dele”. Ora, não é isso que o senhor Jesus ensina, quando nos disse: “Raça de víboras! Como podeis dizer coisas boas, sendo maus? Porque a boca fala do que está cheio o coração (...). E eu vos digo que, no dia do juízo, cada um deverá prestar contas de qualquer palavra inútil que tiver falado. É por tuas palavras que serás inocentado ou condenado” (Mt 12. 34; 36). Podemos aplicar esse princípio também nos dias de hoje para o que foi digitado no Twitter, facebook e, também, para as inúmeras Fake News criadas e compartilhadas por programadores, softwares e robôs bancados pelo “gabinete do ódio”. Se com tudo isso, ainda insistem em apoiar esse desgoverno, deixo mais uma séria advertência de Jesus: “Se fôsseis cegos não teríeis pecado; mas como dizeis: ‘vemos’, o vosso pecado permanece” (Jo 9.41).


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