Literatura para conhecer a Idade Média


Bernard Cornwell e sua fantástica Trilogia de Artur


As Crônicas de Artur – Um homem por trás da lenda! – Formiga Elétrica
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Se existe um período que chama a nossa atenção é a Idade Média. Isso se deve, em grande parte, por ter sido o período em que a Civilização Ocidental foi sendo lentamente gestada pela assimilação entre a herança cultural do mundo antigo, sobretudo a filosofia grega e as instituições políticas e culturais do Império Romano; o cristianismo, que paulatinamente foi crescendo no império até o ponto de tornar-se sua religião oficial; e, por fim, as tradições dos povos germânicos, que originalmente habitavam as regiões ao norte do Império, acima dos rios Reno e Danúbio, e que a partir dos ataques de povos do Oriente, com destaque para os hunos, ou mesmo na busca de novos territórios, avançaram as fronteiras do império. Tal processo, realizado com ondas migratórias e muitas vezes de forma violenta, não pôde ser mais contido, já que as fronteiras eram muito extensas para serem defendidas e o lado Ocidental do Império, mais antigo que o Oriental, já se encontrava em alto grau de esgotamento, vindo a ruir definitivamente no ano de 476, quando o último imperador foi deposto pelo rei visigodo. Serão esses três ingredientes basilares, cultura greco-romana, cristianismo e povos germânicos, que irão constituir os fundamentos do que viria a se tornar a Cristandade Medieval e, por fim, a Civilização Ocidental.

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Os “Reinos Bárbaros”. A partir do século V, com as ondas migratórias dos povos germânicos, o Império Romano do Ocidente foi completamente estilhaçado, dando origem a diversos reinos. O Império do Oriente permaneceu ainda por quase 1000 anos, sendo conquistado pelos Turcos em 1453.


Além desse aspecto realístico, existe o elemento fantástico associado ao período. Muitas vezes, o imaginário que temos dessa época a descreve como uma era em que fantasia e realidade se confundiam. Não é à toa que um dos gêneros de cinema, literatura e jogos mais consolidados e preferidos nos tempos atuais seja o denominado de “fantasia medieval”, em que monstros mitológicos, deuses, seres extraordinários, magos, bruxas, feiticeiras, cavaleiros com armaduras lustrosas e habilidades sobre-humanas, lutam em aventuras por tesouros e relíquias, capazes de fornecer não apenas riquezas, mas poderes sobrenaturais. O Senhor dos Anéis, Nárnia, The Witcher e Game of Thrones são apenas alguns exemplos dessa mistura entre um ambiente medieval e a fantasia. Até mesmos seriados que teriam como proposta a construção de um cenário mais realista, como o sucesso Vikings, acabam se rendendo ao elemento sobrenatural a à aura de misticismo que encobre o período.
Tal mistura não nasceu por acaso. A origem de toda essa visão fantástica sobre a idade média está diretamente associada aos contos arturianos que, apesar de muito antigos, já possuíam todas as estruturas narrativas que se consolidariam como as clássicas do gênero: cavaleiros, magias, amor, honra e relíquias mágicas (Excalibur). Existem diversões versões desses contos arturianos para a literatura e para o cinema, sendo algumas adaptações ótimas, outras nem tanto e a maioria péssima. Nos últimos anos, muitos tentaram recontar essa história a partir das contribuições recentes da historiografia e um dos mais bem sucedidos nesse gênero foi, sem dúvidas, Bernard Cornwell.
Autor das longas séries “As Aventuras de Sharpe” e “Crônicas Saxônicas”, ambas já adaptadas para séries televisivas (as Crônicas Saxônicas estão sendo adaptadas no seriado The Last Kingdom), Bernard Cornwell é, provavelmente, o romancista histórico mais popular da atualidade. Entre todas essas obras, tem relevância a “Trilogia de Artur”, a sua versão sobre os contos arturianos dentro de uma perspectiva historiográfica. O autor usa uma estratégia muito útil para a narrativa: a mistura de personagens históricos e fictícios dentro de um contexto histórico real e é isso que torna tão interessante a leitura das suas obras. Ou seja, os personagens clássicos estão todos presentes: Artur, Lancelot, Merlin, Guinevere, Morgana. E também personagens fictícios interessantíssimos, como o protagonista Derfel, Ceinwyn, Cuneglas, Nimue, Sagramor, Galahad. Mas, e essa é a grande surpresa e trunfo do autor, o grande destaque da obra é o fascinante e rico contexto histórico das origens do ocidente medieval.
No século V d.C., logo após a queda do Império Romano, temos uma Britânia ainda muito distante do que viria a se chamar Inglaterra. O cenário, muito bem construído, é composto pelos britânicos e seus druídas, que são os habitantes da ilha e que lutam pela restauração da sua cultura e fé originais; os romanos que permaneceram na ilha depois da queda do império; cristãos da antiga igreja celta (ainda não Católica Romana); e, finalmente, os invasores Anglo-saxões que tentam a todo custo se estabelecerem na ilha.
O protagonista e narrador da história é Derfel Cadarn, um saxão que sobreviveu a uma tentativa de sacrifício quando criança e, por isso, foi criado por Melin, o maior druída da Britânia. Contando com uma idade avançada, cristão, maneta e morando em um mosteiro, decide escrever, a pedido da sua rainha, as suas aventuras com Artur e as lutas que enfrentou em defesa da Britânia. É interessante que essa estratégia de criar um personagem que transita sempre entre os “dois mundos” é muito utilizada por Cornwell, conforme podemos ver em seu outro protagonista, Uhtred de Bebbanburg, das Crônicas Saxônicas, no caso, um saxão criado como viking. O autor ainda tem muito cuidado com o uso dos nomes originais dos personagens e dos territórios, o que pode provocar um pequeno estranhamento num leitor desavisado no começo (mas que logo passa). O local central em que a história se passa é a Dumnonia, que corresponde hoje ao sudoeste da Grã-Bretanha e que, no futuro, viria a se tornar Wessex.
Artur é descrito como um rei que nunca usou uma coroa. Filho ilegítimo de Uther, rei da Dumnonia e senhor dos reis da Britânia (Pendragon aqui é o título do rei maior), recebe a missão de proteger o herdeiro do trono, seu sobrinho Mordred, até este alcançar a maioridade e, assim, poder assumir a coroa. Nesse caminho, Artur, Derfel e seus demais companheiros irão enfrentar inúmeros problemas relacionados à convivência com essa comunidade cristã britânica, que cresce em número de adeptos e, também em radicalismo, bem como a tentativa de defender seu território das constantes incursões saxãs que a todo custo tentam se fixar na Britânia. Derfel, como pupilo de Merlin, também é convocado por este para ajudá-lo na busca das relíquias da Britânia, um conjunto de artefatos mágico que poderiam restaurar a ilha para a sua glória primitiva, antes do domínio romano. Quero aproveitar para destacar a ótima versão do autor para Merlin, personagem interessantíssimo, de grande inteligência e astúcia, que é descrito como um importante líder druída e, mesmo que a sua magia e rituais sejam descritos de forma bastante natural, sem os elementos fantásticos que costumamos ver no cinema e obras do gênero, ganha relevância naquilo que de fato representa: um líder celta que assistiu impotente sua cultura e fé ser enfraquecida depois de séculos de domínio romano, tentando desesperadamente resistir ao crescimento exponencial do cristianismo e à invasão de um novo dominador estrangeiro. A sua postura, junto com a da sua principal aprendiz, Nimue, irão também provocar novas formas de radicalismo, agora pagão, com consequências drásticas para a história.
Em suma, sabemos o que aconteceu (e isso não é spoiler, podem ficar tranquilos): os saxões conseguiram se estabelecer e fundaram sete reinos no território da Britânia (com o tempo, esses reinos serão anexados uns pelos outros até restarem quatro reinos durante a era Viking). Gostaria de destacar um diálogo muito interessante, entre Derfel e o rei Aelle, que diz: “Cerdic é saxão, mas você e eu somos aenglos e o nosso país é Aengeland”, demonstrando que apesar dos britânicos chamarem todos os invasores de saxões, haviam muitos outros povos germânicos sendo estes últimos os que darão o nome do futuro país Inglaterra, em inglês England, uma versão reduzida de “Terra dos Anglos”. A ocupação desses povos Anglo-Saxões irá reduzir até quase a extinção os traços culturais dos antigos Britânicos, apesar de alguns elementos, como a língua celta, terem sobrevivido no País de Gales, que não foi invadido pelos saxões. A comunidade cristã existente também será drasticamente reduzida pelos invasores, que praticavam uma religião muito parecida com a dos Vikings (os saxões chamavam Odin de Wodan e Thor de Thorun) até a missão católica enviada pelo papa e encabeçada por Agostinho da Cantuária (futuro Santo Agostinho da Cantuária), desembarcar e iniciar o processo de conversão desses povos ao Catolicismo Romano, nos século VI e VII. Como curiosidade, é interessante destacar que essa missão irá encontrar membros dessa comunidade cristã que existia na ilha, chamada hoje de Igreja Celta, apesar de drasticamente reduzida após a ocupação anglo-saxã, sendo que após um primeiro momento de atrito, será por fim também anexada ao Catolicismo Romano. Quem já leu as Crônicas Saxônicas ou assistiu o seriado The Last Kingdom conheceu os saxões completamente cristianizados e tendo que resistir a um novo processo migratório de povos pagãos, desta vez pelos escandinavos. É interessante observar que, do ponto de vista do Britânico, o saxão era como um Viking.

Crédito da imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Heptarquia#/media/Ficheiro:Est-Anglie_Heptarchie_800.png
Os sete reinos Anglo-Saxões na Grã-Bretanha, limitados ao norte pela “Muralha de Adriano”, construída pelos romanos para ser a fronteira entre a Britânia e a Escócia. Parece que isso inspirou alguém, não?

Ler a Trilogia de Artur é mais do que conhecer, é mergulhar nas origens da idade média ocidental. Revisitar personagens clássicos como Artur, Merlin, Morgana, Lancelot, e conhecer novos como Sansum, Galahad, Agrícola, Cercid, Aelle e o protagonista e narrador Derfel é conseguir sentir um pouco dos seus desejos, sonhos e temores. Bernard Cornwell conseguiu reconstruir com grandes detalhes esse período o que permite a nós, leitores da sua obra, se transportar para o século V, dando-nos a oportunidade de vivenciar a riqueza de uma era tão complexa, em que o mundo antigo lutava com todas as forças para tentar sobreviver a uma inevitável crise e, consecutivamente, a uma nova era de mudanças que se anunciava. Talvez essa seja a grande lição. O mundo está sempre mudando e não podemos parar esse processo. Mas, se é assim que as coisas são, então por que resistir? Esse dilema, enfrentado tão intensamente pelos personagens, talvez nos ensine que a resistência em si já é a resposta pois, mesmo que do lado da história, é resistindo que deixamos a nossa marca na história e que parte de nós fica para o futuro. Com tudo isso, podemos compreender que, no fundo, esses povos só lutavam pelo que todos nós lutamos: pela conquista do nosso espaço no mundo.

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