As mãos violentas das redes sociais e a nudez da Filosofia


Referência da imagem: https://pensamentocultuado.blogspot.com/2016/11/bem-supremo.html


Recentemente, o meu amigo André (não posso deixar de dar crédito e agradecer quem me levou a essa reflexão e sempre, pacientemente, lê os meus textos e faz excelentes observações) perguntou minha opinião sobre o Twitter ter colocado um alerta em uma postagem do presidente norte-americano Donald Trump, classificando-a como potencialmente perigosa por colocar as pessoas em risco de exposição ao Coronavírus. A rede social também apagou duas postagens do presidente Bolsonaro pelo mesmo motivo e ambos alegaram interferência no direito de “liberdade de expressão”. Por outro lado, vemos as redes sociais buscarem formas de combaterem a disseminação de Fake news, sobretudo nesses momentos de pandemia em que a desinformação poderia ampliar ainda o número de contaminados e vítimas. A questão do “tribunal da verdade” é muito cara hoje no Ocidente, que sobreviveu ao século XX e suas “verdades absolutas” que custaram tantas vidas, de modo que a liberdade se consolidou como um dos seus maiores valores e fundamentos.
Essa questão poderia suscitar longos debates, o que só mostra como a nossa versão da verdade está diluída no presente, e entre o sim e o não, quem tem ganhado é o tanto faz. Afinal, se não há verdade, posso defender que a terra é plana, que a cloroquina cura o COVID-19 e que vivemos sob o risco de uma ditadura comunista, por mais absurdas que essas hipóteses pareçam nos dias de hoje. Diante de tantas opiniões conflitantes, paranoicas e até preconceituosas, num mundo sem verdade todas as opiniões, por mais absurdas que sejam, encontram espaço e palco. Mas entre todos, tem um lugar tão privilegiado que poderíamos dizer que é a ágora, a antiga praça dos debates no sistema democrático ateniense, dos sofistas contemporâneos: as redes sociais.
Um filósofo do século VI, Boécio, em sua obra “A consolação da Filosofia”, nos dá um valoroso ponto de partida de reflexão para este tema, mesmo que tantos séculos nos afastem de sua vida. Condenado injustamente a morte, torturado e estando preso, num momento de profunda desolação recebe a seguinte visão:
"Enquanto meditava silenciosamente essas coisas comigo e confiava aos meus manuscritos minhas queixas lacrimosas, vi aparecer acima de mim uma mulher que inspirava respeito pelo seu porte: seus olhos estavam em flamas e revelavam uma clarividência sobre-humana, suas feições tinham cores vívidas e delas emanava uma força inexaurível. Ela parecia ter vivido tantos anos que não era possível que fosse do nosso tempo. Sua estatura era indiscernível: por vezes tinha o tamanho humano, outras parecia atingir o céu e, quando levantava a cabeça mais alto ainda, alcançava o vértice dos céus e desaparecia dos olhares humanos. Suas vestes eram tecidas de delicadíssimos fios, trabalhados minuciosamente e feitos de um material perfeito; ela revelou mais tarde ter sido ela própria quem teceu a veste. A poeira dos tempos, assim como acontece com o brilho das antigas pinturas, obscurecia um pouco seu esplendor. Embaixo de sua imagem estava escrito um Pi e em cima um Theta. E, entre essas duas letras, via-se uma escada cujos degraus ligavam o elemento inferior ao superior. No entanto, mãos violentas rasgaram sua veste e cada uma tomou um pedaço dela. Mas ela tinha livros na mão direita e um cetro na esquerda."[1]
Mais adiante, o autor reconhece na mulher da visão a sua antiga mestra, a Filosofia, que veio para consolá-lo nesse momento de profunda desolação, ensinando-o sobre o bem e a verdade, após tantos sofrimentos causados pelo mal e pela mentira. Mas será que tal visão ainda tem relação com os dias de hoje?
A mulher da visão, que é a personificação da Filosofia, aparece adornada por duas letras gregas, o Pi, inicial de práxis e o Theta, de teoria. Ou seja, a prática é o início dos degraus que levam ao conhecimento, mas muitos querem chegar à teoria sem o trabalho de caminharem pela longa subida que o conhecimento exige. De fato, muitos preferem apenas uma parte dela, sobretudo os donos das mãos violentas que, escondidas hoje por trás de aparelhos, teclados, telas, microfones etc., digitam ou vociferam argumentos agressivos, discursos de ódio, preconceitos e mentiras. Tudo porque, com um pedaço da veste que violentamente ajudaram a rasgar, se consideram legitimados a defender o que quiserem, mesmo que seja abominável e o resultado desastroso. Num mundo sem verdade, não existe Fake news, já que nada é verdadeiro ou mentiroso e tudo é relativo.
Mas a visão de Boécio continua e a própria filosofia explica o que fizeram com suas belas vestes:
"A veste, que eu havia tecido com minhas próprias mãos, foi rasgada e arrancada, e os que fizeram isso partiram com os farrapos pensado tê-la inteira. E, como reconheciam nesses farrapos vestígios de minha túnica, algumas pessoas desavisadas tomaram aqueles malfeitores por discípulos meus e foram levados por eles ao erro e ao engano."[2]
A estratégia dos donos das mãos violentas nunca muda. Rasgam as vestes da filosofia quando citam passagens para passarem por filósofos, sábios e inteligentes, achando que somente isso é suficiente para serem reconhecidos como pensadores. O propósito também não muda, nem as consequências: desavisados, ainda hoje, enganados pela aparência de um pretenso saber, caem nessas armadilhas e se tornam seus discípulos, pagando caro para aprenderem farrapos de pensamentos que, muito mal costurados, se tornam exóticas colchas de retalhos. De longe parecem bonitas, mas só o frio da solidão poderá dizer se servirão para proteger no longo inverno que virá da crise que estão provocando no pensamento e nas instituições com suas violentas e mentirosas mãos, demonstrando que a filosofia estará, por fim, completamente nua.
Não queremos restaurar a concepção de verdade absoluta, nem instaurar um tribunal do santo ofício no Twitter, no Youtube ou no WhatsApp. Queremos apenas demonstrar como é fácil discernir entre opinião e conhecimento; e, acima de tudo, entre uma informação verdadeira e uma Fake news, isto é, "notícia falsa", termo que, em nossa língua, apesar de bem simples e direto, acabou se tornando mais um eufemismo para a mentira. Não há outra definição: são violentos e mentirosos! É tão simples discernir entre esses dois pontos. Peguemos o próprio caso do COVID-19, que é atual, e analisemos: o que eu postei nas redes sociais, como pessoa influente e formadora de opinião, contribuiu para ampliar a doença ou para preveni-la? Outro caso: a terra é plana ou esférica? Ora, o que eu defendo, tal como o vestido que a própria filosofia teceu, deu conta de cobrir mais o seu corpo, menos, nada ou partes, considerando que não podemos nos esquecer que, antes dos degraus, existe a prática?
“Ah, mas fizeram um tribunal da verdade?”, “E o meu direito de liberdade de expressão!” são frases que, entre tantas outras, poderão alegar. Penso que para esses, diante de tanta clareza e discernimento, só resta concluir que agem por interesses pessoais de voyeurismo: preferem a filosofia completamente nua mesmo, somente para satisfação dos seus interesses mais sombrios. É importante recordar que, se tenho liberdade de expressão, também tenho que assumir a responsabilidade, inclusive penal, pelo que escrevo ou digo, o que derruba qualquer relativismo final sobre isso. Na hora, as mãos violentas podem ter se divertido e causado o dano esperado em seus adversários ideológicos, desnudando ainda mais a filosofia e ferindo moralmente ou até fisicamente seus inimigos, mas como diz o velho e conhecido ditado “quem com ferro fere, com ferro será ferido”, frase que hoje pode ser atualizada para o Twitter ou o Youtube no lugar do ferro. Agora que já estão começando a, literalmente, pagar, abandonados pelos que tanto enganaram e indenizando a todos que violentamente ofendiam sem pensar, eles é que terão que vender as suas vestes e aguentar sua nudez exposta, revelando os podres que faziam tanta questão de violentamente esconder.






[1] A CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA, Boécio, posição 645.
[2] Ibid, posição 658.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Religião e Doutrina

As invasões bárbaras

Os profetas do capitalismo ou os áugures de Mamon