As mãos violentas das redes sociais e a nudez da Filosofia
Recentemente, o meu amigo André (não posso deixar de dar crédito e agradecer quem me levou a essa reflexão e sempre, pacientemente, lê os meus textos e faz excelentes observações) perguntou minha opinião sobre o Twitter ter colocado um alerta em uma
postagem do presidente norte-americano Donald Trump, classificando-a como
potencialmente perigosa por colocar as pessoas em risco de exposição ao Coronavírus.
A rede social também apagou duas postagens do presidente Bolsonaro pelo mesmo
motivo e ambos alegaram interferência no direito de “liberdade de expressão”.
Por outro lado, vemos as redes sociais buscarem formas de combaterem a disseminação
de Fake news, sobretudo nesses momentos de pandemia em que a desinformação poderia
ampliar ainda o número de contaminados e vítimas. A questão do “tribunal da
verdade” é muito cara hoje no Ocidente, que sobreviveu ao século XX e suas “verdades
absolutas” que custaram tantas vidas, de modo que a liberdade se consolidou
como um dos seus maiores valores e fundamentos.
Essa questão poderia
suscitar longos debates, o que só mostra como a nossa versão da verdade está diluída
no presente, e entre o sim e o não, quem tem ganhado é o tanto faz. Afinal, se não há verdade,
posso defender que a terra é plana, que a cloroquina cura o COVID-19 e que vivemos
sob o risco de uma ditadura comunista, por mais absurdas que essas hipóteses
pareçam nos dias de hoje. Diante de tantas opiniões conflitantes, paranoicas e
até preconceituosas, num mundo sem verdade todas as opiniões, por mais absurdas que sejam, encontram espaço e palco. Mas entre todos, tem um lugar tão privilegiado que poderíamos dizer que é a ágora, a antiga praça dos debates no sistema democrático ateniense, dos sofistas contemporâneos: as redes sociais.
Um filósofo do século VI,
Boécio, em sua obra “A consolação da Filosofia”, nos dá um valoroso ponto de
partida de reflexão para este tema, mesmo que tantos séculos nos afastem de sua
vida. Condenado injustamente a morte, torturado e estando preso, num momento de
profunda desolação recebe a seguinte visão:
"Enquanto meditava silenciosamente essas coisas comigo e confiava aos meus manuscritos minhas queixas lacrimosas, vi aparecer acima de mim uma mulher que inspirava respeito pelo seu porte: seus olhos estavam em flamas e revelavam uma clarividência sobre-humana, suas feições tinham cores vívidas e delas emanava uma força inexaurível. Ela parecia ter vivido tantos anos que não era possível que fosse do nosso tempo. Sua estatura era indiscernível: por vezes tinha o tamanho humano, outras parecia atingir o céu e, quando levantava a cabeça mais alto ainda, alcançava o vértice dos céus e desaparecia dos olhares humanos. Suas vestes eram tecidas de delicadíssimos fios, trabalhados minuciosamente e feitos de um material perfeito; ela revelou mais tarde ter sido ela própria quem teceu a veste. A poeira dos tempos, assim como acontece com o brilho das antigas pinturas, obscurecia um pouco seu esplendor. Embaixo de sua imagem estava escrito um Pi e em cima um Theta. E, entre essas duas letras, via-se uma escada cujos degraus ligavam o elemento inferior ao superior. No entanto, mãos violentas rasgaram sua veste e cada uma tomou um pedaço dela. Mas ela tinha livros na mão direita e um cetro na esquerda."[1]
Mais adiante, o autor
reconhece na mulher da visão a sua antiga mestra, a Filosofia, que veio para
consolá-lo nesse momento de profunda desolação, ensinando-o sobre o bem e a
verdade, após tantos sofrimentos causados pelo mal e pela mentira. Mas será que tal
visão ainda tem relação com os dias de hoje?
A mulher da visão, que é
a personificação da Filosofia, aparece adornada por duas letras gregas, o Pi, inicial de práxis e o Theta, de teoria. Ou seja, a prática é o início
dos degraus que levam ao conhecimento, mas muitos querem chegar à teoria sem o
trabalho de caminharem pela longa subida que o conhecimento exige. De fato,
muitos preferem apenas uma parte dela, sobretudo os donos das mãos violentas
que, escondidas hoje por trás de aparelhos, teclados, telas, microfones etc., digitam
ou vociferam argumentos agressivos, discursos de ódio, preconceitos e mentiras.
Tudo porque, com um pedaço da veste que violentamente ajudaram a rasgar, se consideram
legitimados a defender o que quiserem, mesmo que seja abominável e o resultado
desastroso. Num mundo sem verdade, não existe Fake news, já que nada é verdadeiro ou mentiroso e tudo é relativo.
Mas a visão de Boécio
continua e a própria filosofia explica o que fizeram com suas belas vestes:
"A veste, que eu havia tecido com minhas próprias mãos, foi rasgada e arrancada, e os que fizeram isso partiram com os farrapos pensado tê-la inteira. E, como reconheciam nesses farrapos vestígios de minha túnica, algumas pessoas desavisadas tomaram aqueles malfeitores por discípulos meus e foram levados por eles ao erro e ao engano."[2]
A estratégia dos donos
das mãos violentas nunca muda. Rasgam as vestes da filosofia quando citam passagens
para passarem por filósofos, sábios e inteligentes, achando que somente isso é
suficiente para serem reconhecidos como pensadores. O propósito também não
muda, nem as consequências: desavisados, ainda hoje, enganados pela aparência
de um pretenso saber, caem nessas armadilhas e se tornam seus discípulos,
pagando caro para aprenderem farrapos de pensamentos que, muito mal costurados,
se tornam exóticas colchas de retalhos. De longe parecem bonitas, mas só o frio
da solidão poderá dizer se servirão para proteger no longo inverno que virá da
crise que estão provocando no pensamento e nas instituições com suas violentas
e mentirosas mãos, demonstrando que a filosofia estará, por fim, completamente
nua.
Não queremos restaurar a
concepção de verdade absoluta, nem instaurar um tribunal do santo ofício no Twitter,
no Youtube ou no WhatsApp. Queremos apenas demonstrar como é fácil discernir
entre opinião e conhecimento; e, acima de tudo, entre uma informação verdadeira
e uma Fake news, isto é, "notícia falsa", termo que, em nossa língua, apesar de bem simples e direto, acabou
se tornando mais um eufemismo para a mentira. Não há outra definição: são violentos
e mentirosos! É tão simples discernir entre esses dois pontos. Peguemos o próprio caso
do COVID-19, que é atual, e analisemos: o que eu postei nas redes
sociais, como pessoa influente e formadora de opinião, contribuiu para ampliar
a doença ou para preveni-la? Outro caso: a terra é plana ou esférica? Ora, o
que eu defendo, tal como o vestido que a própria filosofia teceu, deu conta de
cobrir mais o seu corpo, menos, nada ou partes, considerando que não podemos
nos esquecer que, antes dos degraus, existe a prática?
“Ah, mas fizeram um tribunal
da verdade?”, “E o meu direito de liberdade de expressão!” são frases que,
entre tantas outras, poderão alegar. Penso que para esses, diante de tanta
clareza e discernimento, só resta concluir que agem por interesses pessoais de
voyeurismo: preferem a filosofia completamente nua mesmo, somente para satisfação
dos seus interesses mais sombrios. É importante recordar que, se tenho
liberdade de expressão, também tenho que assumir a responsabilidade, inclusive
penal, pelo que escrevo ou digo, o que derruba qualquer relativismo final sobre
isso. Na hora, as mãos violentas podem ter se divertido e causado o dano esperado
em seus adversários ideológicos, desnudando ainda mais a filosofia e ferindo
moralmente ou até fisicamente seus inimigos, mas como diz o velho e conhecido
ditado “quem com ferro fere, com ferro será ferido”, frase que hoje pode ser
atualizada para o Twitter ou o Youtube no lugar do ferro. Agora que já estão
começando a, literalmente, pagar, abandonados pelos que tanto enganaram e indenizando
a todos que violentamente ofendiam sem pensar, eles é que terão que vender as suas
vestes e aguentar sua nudez exposta, revelando os podres que faziam tanta questão
de violentamente esconder.
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