Jogando com o dono da bola


Reflexões sobre a Educação Brasileira


Dono da bola - Desciclopédia

No futebol de rua, ápice da diversão juvenil nas cidades brasileiras, existem regras muito claras e comuns em todo o território nacional, que chegam a provocar um certo estranhamento num possível estrangeiro que se interessasse em conhecer esse esporte, popularmente conhecido pelo aparentemente erótico termo “pelada”, mas que originalmente tem o seu nome oriundo de “péla”, forma antiga utilizada para se referir às bolas de couro[1]. Os organizadores, sem nenhuma objeção, nem mesmo a da famigerada ideia de competição natural que alguns tanto pregam, pegam a bola e entregam nas mãos dos dois melhores para cada um formar o seu próprio time, já que os dois não poderiam ficar no mesmo porque seria apelativo, o que revela um senso ético profundíssimo para jovens pré-adolescentes e confirma com bastante convicção a evidência da máxima kantiana “duas coisas enchem o meu espírito de admiração: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim”. Os que sobraram, pelo limite de jogadores do time, ainda têm a oportunidade de jogar de próximo, escolhendo um para sair do time perdedor, e assim todo mundo se diverte, inclusive os sem talentos para o esporte, chamados de “pernas de pau”. Porém, como tudo na vida, existe uma forma de burlar esse equilíbrio, que se chama “o dono da bola”.
Salvo raras exceções, o dono da bola pertence ao grupo dos “pernas de pau” mas, como ele tem a bola e sem ele a brincadeira não acontece, se recusa a ficar de próximo e a sair quando o seu time perde, sob o risco de dizer “acabou a brincadeira, dá a bola que eu vou para casa”. Interessante que muitas vezes ele não reconhece as suas poucas habilidades futebolísticas e se acha bom jogador, numa autoilusão por sempre estar em campo. Alguns exigem cobrar faltas, reclamar com os amigos quando estes não jogam bem, serem capitães e até mesmo encerrar de vez a partida quando se sente desvalorizado ou não tem as suas regras de benefício próprio obedecidas. Ser o “dono da bola” era uma forma de estar sempre em campo independentemente do talento, e não era barato, já que para garotos brasileiros dos anos 80 e 90, bolas profissionais ou mesmo de “capotão” eram raras e valorizadíssimas, pois quem jogou futebol na rua sabe o quão difícil era fazer um lance com uma bola “dente de leite”, que além do time adversário, ainda poderia ser driblada pelo vento. Analisando hoje o passado, lembro que eu também já fui algumas vezes um “dono da bola”, pois sempre fui perna de pau e sem talento nenhum para esses tipos de esporte. Mas, em defesa própria, alego que não fui dos mais chatos.
Olhando a realidade educacional do Brasil de hoje, percebo que vivemos num longo jogo estrutural com o dono da bola. Alguns de fato possuem talento, mas a grande maioria é de medíocre para ruim, mas permanecem sempre em campo e ditam as regras do jogo de acordo com os seus interesses porque podem pagar pelos equipamentos que a maioria não pode. Nesse aspecto, um pensador que ajuda a desvelar essa realidade é o filósofo francês Jean-Paul Sartre em sua obra Que é a Literatura? Apesar de não ser uma das referências mais citadas em educação ou pedagogia, esta obra, que trata do tema da literatura engajada, contribui com grandes conceitos que permitem identificar quem é esse dono da bola, identificado pelo autor como sendo a “burguesia”, e que nos, dias atuais poderíamos identificar com as nossas elites e a alta classe média.
A burguesia, da maneira como Sartre a concebe, ascendeu socialmente pelo progresso econômico e buscou esclarecimento, pois esse saber deu bases para a sua crítica à nobreza, a reivindicação de direitos e, mais importante, a participação política. Desse modo, ela se apropriou do espaço político e acadêmico, mas, assim como a nobreza, também fechou nesses espaços para outros, criando mecanismos para garantir a perpetuação do seu grupo e uma filosofia que legitimasse a sua posição ideológica: o liberalismo. Pela ideia de mérito e não mais pelos direitos de sangue, a burguesia monopolizou a política e a universidade para si, criando mecanismos para a manutenção do poder pela sua classe, como inicialmente foi voto censitário e hoje, com o sufrágio universal, a cara publicidade para a campanha política. Na educação, tal função é exercida pelo exame vestibular, sendo este o ponto de partida da nossa análise.
No Brasil, a burguesia se apropriou do Ensino Superior como seu local por excelência, de modo que, mesmo quando não possui o monopólio dos bens econômicos, no caso dos representantes da alta classe média, ela pode ainda ter o dos bens culturais. Porém, como forma de manter as estruturas da sociedade de maneira a beneficiá-la, cria mecanismos que impedem a democratização e universalização do acesso à cultura e, mais do que isso, como oriunda desse processo de esclarecimento que a beneficiou no passado, produz um ensino “superior” à sua imagem, como se fosse um “espelho da rainha má” do conto infantil da “Branca de Neve”, cuja função principal é mostrar para si própria um reflexo ideal de quanto é esforçada por ter conseguido passar num exame de seleção tão rigoroso; o quanto é culta, por desenvolver uma literatura e artes tão profundas, belas e eruditas; e, o quanto ela é boa e especial, por ainda ser a favor de uma universidade que, na teoria, é pública aberta a todos que possuem tal mérito. O interessante é que a pessoa que ascende à universidade assimila essa cultura burguesa para si, muitas vezes sem essa consciência, já que por ser considerado “superior”, tal ensino seria o modelo por excelência da formação. Em suma, torna-se também um burguês. Em Que é a Literatura?, Sartre, ao discorrer sobre a origem do escritor, torna extremamente clara sua vocação burguesa, conforme a referência abaixo:

“Nascemos da burguesia e essa classe nos ensinou o valor de suas conquistas: liberdades políticas, habeas corpus etc.; continuamos burgueses por nossa cultura, nosso modo de vida e nosso público atual”.[2]

Quando essa cultura burguesa, dita “superior”, chega nas periferias, encontra a sua oposição: uma cultura não acadêmica, popular, prática e, sobretudo, preocupada com a vida, não como projeto, mas como dado imediato da existência. Esse dilema é um dos pontos fundamentais da educação brasileira até os dias atuais pois, muitas vezes, o educador, estimulado pela educação burguesa que recebeu, continua como um missionário desse processo civilizatório ocidental que, muitas vezes de maneira forçada, tenta incutir os altos e eruditos valores da civilização ocidental sobre a cultura de jovens que, diante desse processo – uma verdadeira aculturação contemporânea, vê sua própria cultura totalmente negada e negativada. Não raras vezes, o jovem da periferia se depara cotidianamente com críticas que consideram sua arte como ruim, seu estilo de vida como mau, sua linguagem como errada e sua vida como medíocre. Por outro lado, e essa é a grande maioria dos casos, o próprio educador encontra-se numa situação ambígua e vive num permanente conflito ideológico em que se vê forçado a transmitir conteúdos enciclopédicos por causa das “regras do jogo”, pois quer o melhor para o seu estudante e compreende que passar no vestibular e o acesso ao Ensino Superior seria o melhor caminho para ascensão social, mesmo com críticas às formas de ingresso e à educação tradicional, bem como à desvalorização das culturas ditas periféricas da nossa sociedade. De qualquer modo, o jovem estudante muitas vezes é forçado a aderir a uma cultura que lhe é estranha, hostil, desrespeitosa e agressiva, sob a pretensão de ter que passar numa prova de mérito e aderir a um modelo de ensino e, consecutivamente, de vida daqueles que criaram “as regras do jogo” que, por terem os bens econômicos, são nesse caso os verdadeiros donos da bola.
Aqui fica o maior desafio da educação: ser a principal forma de empoderamento, democratização, desenvolvimento social etc., mas, na nossa analogia com o futebol, ter que ser feita com as regras de outros. Ter que assimilar a um conjunto de conteúdos que, de fato, são importantes, mas que para a maioria dos estudantes das periferias de nossas cidades, carecem completamente de qualquer significado. Essa é uma das principais dificuldades do estudante das nossas escolas públicas, pois eles precisam aprender códigos simbólicos e culturais para viver em sua realidade e ainda precisam aprender códigos completamente alheios à sua vida cotidiana, para poder fazer frente à educação burguesa num exame que deveria ser justo mas que, de fato, só nos força num trabalho hercúleo a vencer aqueles que criaram as regras e ainda por cima estão jogando em casa. Tal afirmação é corroborada pela afiada análise sociológica do prof. Jessé Souza em sua famosa obra A elite do atraso:

"A criança de classe média, afinal, chega na escola conseguindo se concentrar nos estudos, porque já havia recebido estímulos para direcionar sua atenção ao estudo e à leitura, antes, por estímulo familiar. Como a família também compra seu tempo livre para que possa se dedicar integralmente à escola, a pré-história do vencedor predestinado ao sucesso se completa. Todas as vantagens culturais e econômicas se juntam, mais tarde, para a produção, desde o berço, de um campeão na competição social".[3]

A Universidade está mudando. Graças a anos de ações afirmativas que, com muita resistência, foram sendo aos poucos empregadas, temos hoje um publico mais plural no ensino superior e, entre estes, muitos estão criticando o currículo tradicional através de diversos movimentos de descolonização cultural e valorização das culturas periféricas. Esse movimento sofre grande oposição hoje dos defensores dos valores tradicionais da civilização Ocidental, o que era de se esperar. Os donos da bola quando veem que o seu jogo sofre ameaça têm como reação natural pegar a bola e parar a brincadeira, num eufemismo bem grosseiro para, literalmente, dar um “golpe”. Isso só demonstra os efeitos políticos da educação, conforme recentemente assistimos na estarrecedora reunião ministerial quando o então ministro da educação disse: “odeio o termo povos indígenas”. Afinal, numa visão tradicional e eurocêntrica, não existe espaço para outras culturas, cabendo ao ocidental, num esforço missionário, civilizar todos os povos chamados “bárbaros”, numa atualização da “Pax romana”. Dentro da perspectiva de descolonização, percebemos que não existe “A Cultura”, mas sim culturas plurais, diversificadas, e que todas merecem coexistir. O dono da bola, diante dessa evidência antropológica, como sempre faz quando contrariado, “dá um piti”, pega a sua bola e, assim como o Kiko do seriado “Chaves”, chama a mamãe (ou o capitão) para ser defendido e vai para bem longe da gentalha “comunista”.
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Referência da imagem: http://senhoralguem.ig.com.br/curiosidades/2017-05-08/chaves-acapulco.html
Se soubessem coexistir, tolerar, saberiam que se todo mundo tiver uma bola, todo mundo que quiser poderá aprender a jogar, mas em verdadeiro “pé-de-igualdade”. No Brasil pobre e desigual, em que só um grupinho poderia se dar bem, eles levavam o jogo de maneira interesseira, para estar sempre em campo e o seu time sempre ganhar. Portanto, é ingênuo que esse movimento de desconstrução parta justamente das elites, como um dos ditados populares mais conhecidos nos ensina: “não se mexe em time que está ganhando”. É justamente pelas ações afirmativas que vamos ir, num processo contínuo e longo, democratizando a sociedade e, assim, dando voz, sistematização e, literalmente, poder para os que estruturalmente foram excluídos da nossa sociedade, do currículo educacional, da política e, sobretudo, da cultura. As elites irão gritar, espernear, xingar, fazer o que for para acusar vitimismo, “mimimi” e outras coisas do gênero os que se levantam contra o seu sistema, e os gritos que já ouvimos são sinais de que as coisas começaram a mudar e incomodar.
Por enquanto ainda vamos ter que levar o jogo nas regras do outro, o que infelizmente é um dado real e concreto. Ainda precisamos, dentro da linguagem freiriana, educar em dois sentidos, libertador e bancário, do estudante como depósito de conhecimentos. Mas, conforme o ensino superior estiver se democratizando, num futuro cada vez mais próximo, ainda poderemos sonhar com um modelo educacional plural, que como ensinou o maior educador brasileiro, valorizem os seres humanos “na sua vocação ontológica e história de ser mais”[4] em que as culturas possam coexistir, não mais pela imposição autoritária, repressiva e excludente, mas num permanente e fecundo diálogo. Só assim, realmente, poderemos superar a compreensão colonialista e concretizar a nossa vocação ontológica: sermos cada vez, mais.




[1] https://super.abril.com.br/comportamento/por-que-chamam-de-pelada/
[2] SARTRE, Jean-Paul. Que é a Literatura?. 3. ed. Tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 2006, p. 203.
[3] SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: da escravidão à Lava jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017, p. 97.
[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, 58. Ed. revista e atualizada, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014, p. 72.

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