Jogando com o dono da bola
Reflexões sobre a Educação Brasileira
Referência da imagem: https://desciclopedia.org/wiki/Dono_da_bola
No futebol de rua, ápice
da diversão juvenil nas cidades brasileiras, existem regras muito claras e
comuns em todo o território nacional, que chegam a provocar um certo
estranhamento num possível estrangeiro que se interessasse em conhecer esse
esporte, popularmente conhecido pelo aparentemente erótico termo “pelada”, mas
que originalmente tem o seu nome oriundo de “péla”, forma antiga
utilizada para se referir às bolas de couro[1]. Os organizadores, sem
nenhuma objeção, nem mesmo a da famigerada ideia de competição natural que alguns
tanto pregam, pegam a bola e entregam nas mãos dos dois melhores para cada um
formar o seu próprio time, já que os dois não poderiam ficar no mesmo porque
seria apelativo, o que revela um senso ético profundíssimo para jovens
pré-adolescentes e confirma com bastante convicção a evidência da máxima
kantiana “duas coisas enchem o meu espírito de admiração: o céu estrelado sobre
mim e a lei moral dentro de mim”. Os que sobraram, pelo limite de jogadores do
time, ainda têm a oportunidade de jogar de próximo, escolhendo um para sair do
time perdedor, e assim todo mundo se diverte, inclusive os sem talentos para o
esporte, chamados de “pernas de pau”. Porém, como tudo na vida, existe uma
forma de burlar esse equilíbrio, que se chama “o dono da bola”.
Salvo raras exceções, o
dono da bola pertence ao grupo dos “pernas de pau” mas, como ele tem a bola e
sem ele a brincadeira não acontece, se recusa a ficar de próximo e a sair
quando o seu time perde, sob o risco de dizer “acabou a brincadeira, dá a bola
que eu vou para casa”. Interessante que muitas vezes ele não reconhece as suas
poucas habilidades futebolísticas e se acha bom jogador, numa autoilusão por
sempre estar em campo. Alguns exigem cobrar faltas, reclamar com os amigos
quando estes não jogam bem, serem capitães e até mesmo encerrar de vez a
partida quando se sente desvalorizado ou não tem as suas regras de benefício próprio
obedecidas. Ser o “dono da bola” era uma forma de estar sempre em campo
independentemente do talento, e não era barato, já que para garotos brasileiros
dos anos 80 e 90, bolas profissionais ou mesmo de “capotão” eram raras e
valorizadíssimas, pois quem jogou futebol na rua sabe o quão difícil era fazer
um lance com uma bola “dente de leite”, que além do time adversário, ainda
poderia ser driblada pelo vento. Analisando hoje o passado, lembro que eu
também já fui algumas vezes um “dono da bola”, pois sempre fui perna de pau e
sem talento nenhum para esses tipos de esporte. Mas, em defesa própria, alego
que não fui dos mais chatos.
Olhando a realidade
educacional do Brasil de hoje, percebo que vivemos num longo jogo estrutural
com o dono da bola. Alguns de fato possuem talento, mas a grande maioria é de
medíocre para ruim, mas permanecem sempre em campo e ditam as regras do jogo de
acordo com os seus interesses porque podem pagar pelos equipamentos que a
maioria não pode. Nesse aspecto, um pensador que ajuda a desvelar essa
realidade é o filósofo francês Jean-Paul Sartre em sua obra Que é a
Literatura? Apesar de não ser uma das referências mais citadas em educação
ou pedagogia, esta obra, que trata do tema da literatura engajada, contribui
com grandes conceitos que permitem identificar quem é esse dono da bola,
identificado pelo autor como sendo a “burguesia”, e que nos, dias atuais
poderíamos identificar com as nossas elites e a alta classe média.
A burguesia, da maneira
como Sartre a concebe, ascendeu socialmente pelo progresso econômico e buscou
esclarecimento, pois esse saber deu bases para a sua crítica à nobreza, a
reivindicação de direitos e, mais importante, a participação política. Desse
modo, ela se apropriou do espaço político e acadêmico, mas, assim como a
nobreza, também fechou nesses espaços para outros, criando mecanismos para
garantir a perpetuação do seu grupo e uma filosofia que legitimasse a sua
posição ideológica: o liberalismo. Pela ideia de mérito e não mais pelos
direitos de sangue, a burguesia monopolizou a política e a universidade para si,
criando mecanismos para a manutenção do poder pela sua classe, como inicialmente
foi voto censitário e hoje, com o sufrágio universal, a cara publicidade para a
campanha política. Na educação, tal função é exercida pelo exame vestibular, sendo
este o ponto de partida da nossa análise.
No Brasil, a burguesia se
apropriou do Ensino Superior como seu local por excelência, de modo que, mesmo
quando não possui o monopólio dos bens econômicos, no caso dos representantes da
alta classe média, ela pode ainda ter o dos bens culturais. Porém, como forma
de manter as estruturas da sociedade de maneira a beneficiá-la, cria mecanismos
que impedem a democratização e universalização do acesso à cultura e, mais do
que isso, como oriunda desse processo de esclarecimento que a beneficiou no
passado, produz um ensino “superior” à sua imagem, como se fosse um “espelho da
rainha má” do conto infantil da “Branca de Neve”, cuja função principal é mostrar
para si própria um reflexo ideal de quanto é esforçada por ter conseguido passar
num exame de seleção tão rigoroso; o quanto é culta, por desenvolver uma literatura
e artes tão profundas, belas e eruditas; e, o quanto ela é boa e especial, por
ainda ser a favor de uma universidade que, na teoria, é pública aberta a todos
que possuem tal mérito. O interessante é que a pessoa que ascende à universidade
assimila essa cultura burguesa para si, muitas vezes sem essa consciência, já
que por ser considerado “superior”, tal ensino seria o modelo por excelência da
formação. Em suma, torna-se também um burguês. Em Que é a Literatura?,
Sartre, ao discorrer sobre a origem do escritor, torna extremamente clara sua
vocação burguesa, conforme a referência abaixo:
“Nascemos da burguesia e essa classe nos ensinou o valor de suas conquistas: liberdades políticas, habeas corpus etc.; continuamos burgueses por nossa cultura, nosso modo de vida e nosso público atual”.[2]
Quando essa cultura burguesa,
dita “superior”, chega nas periferias, encontra a sua oposição: uma cultura não
acadêmica, popular, prática e, sobretudo, preocupada com a vida, não como
projeto, mas como dado imediato da existência. Esse dilema é um dos pontos
fundamentais da educação brasileira até os dias atuais pois, muitas vezes, o
educador, estimulado pela educação burguesa que recebeu, continua como um
missionário desse processo civilizatório ocidental que, muitas vezes de maneira
forçada, tenta incutir os altos e eruditos valores da civilização ocidental sobre
a cultura de jovens que, diante desse processo – uma verdadeira aculturação contemporânea,
vê sua própria cultura totalmente negada e negativada. Não raras vezes, o jovem
da periferia se depara cotidianamente com críticas que consideram sua arte como
ruim, seu estilo de vida como mau, sua linguagem como errada e sua vida como medíocre.
Por outro lado, e essa é a grande maioria dos casos, o próprio educador
encontra-se numa situação ambígua e vive num permanente conflito ideológico em
que se vê forçado a transmitir conteúdos enciclopédicos por causa das “regras
do jogo”, pois quer o melhor para o seu estudante e compreende que passar no
vestibular e o acesso ao Ensino Superior seria o melhor caminho para ascensão
social, mesmo com críticas às formas de ingresso e à educação tradicional, bem
como à desvalorização das culturas ditas periféricas da nossa sociedade. De
qualquer modo, o jovem estudante muitas vezes é forçado a aderir a uma cultura que
lhe é estranha, hostil, desrespeitosa e agressiva, sob a pretensão de ter que passar
numa prova de mérito e aderir a um modelo de ensino e, consecutivamente, de
vida daqueles que criaram “as regras do jogo” que, por terem os bens
econômicos, são nesse caso os verdadeiros donos da bola.
Aqui fica o maior desafio
da educação: ser a principal forma de empoderamento, democratização, desenvolvimento
social etc., mas, na nossa analogia com o futebol, ter que ser feita com as
regras de outros. Ter que assimilar a um conjunto de conteúdos que, de fato,
são importantes, mas que para a maioria dos estudantes das periferias de nossas
cidades, carecem completamente de qualquer significado. Essa é uma das principais
dificuldades do estudante das nossas escolas públicas, pois eles precisam
aprender códigos simbólicos e culturais para viver em sua realidade e ainda
precisam aprender códigos completamente alheios à sua vida cotidiana, para
poder fazer frente à educação burguesa num exame que deveria ser justo mas que,
de fato, só nos força num trabalho hercúleo a vencer aqueles que criaram as
regras e ainda por cima estão jogando em casa. Tal afirmação é corroborada pela
afiada análise sociológica do prof. Jessé Souza em sua famosa obra A elite do
atraso:
"A criança de classe média, afinal, chega na escola conseguindo se concentrar nos estudos, porque já havia recebido estímulos para direcionar sua atenção ao estudo e à leitura, antes, por estímulo familiar. Como a família também compra seu tempo livre para que possa se dedicar integralmente à escola, a pré-história do vencedor predestinado ao sucesso se completa. Todas as vantagens culturais e econômicas se juntam, mais tarde, para a produção, desde o berço, de um campeão na competição social".[3]
A Universidade está mudando.
Graças a anos de ações afirmativas que, com muita resistência, foram sendo aos
poucos empregadas, temos hoje um publico mais plural no ensino superior e,
entre estes, muitos estão criticando o currículo tradicional através de
diversos movimentos de descolonização cultural e valorização das culturas periféricas.
Esse movimento sofre grande oposição hoje dos defensores dos valores
tradicionais da civilização Ocidental, o que era de se esperar. Os donos da
bola quando veem que o seu jogo sofre ameaça têm como reação natural pegar a
bola e parar a brincadeira, num eufemismo bem grosseiro para, literalmente, dar
um “golpe”. Isso só demonstra os efeitos políticos da educação, conforme
recentemente assistimos na estarrecedora reunião ministerial quando o então
ministro da educação disse: “odeio o termo povos indígenas”. Afinal, numa visão
tradicional e eurocêntrica, não existe espaço para outras culturas, cabendo ao ocidental,
num esforço missionário, civilizar todos os povos chamados “bárbaros”, numa
atualização da “Pax romana”. Dentro da perspectiva de descolonização,
percebemos que não existe “A Cultura”, mas sim culturas plurais,
diversificadas, e que todas merecem coexistir. O dono da bola, diante dessa
evidência antropológica, como sempre faz quando contrariado, “dá um piti”, pega
a sua bola e, assim como o Kiko do seriado “Chaves”, chama a mamãe (ou o capitão) para ser
defendido e vai para bem longe da gentalha “comunista”.
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| Referência da imagem: http://senhoralguem.ig.com.br/curiosidades/2017-05-08/chaves-acapulco.html |
Se soubessem coexistir, tolerar,
saberiam que se todo mundo tiver uma bola, todo mundo que quiser poderá aprender
a jogar, mas em verdadeiro “pé-de-igualdade”. No Brasil pobre e desigual, em
que só um grupinho poderia se dar bem, eles levavam o jogo de maneira
interesseira, para estar sempre em campo e o seu time sempre ganhar. Portanto,
é ingênuo que esse movimento de desconstrução parta justamente das elites, como
um dos ditados populares mais conhecidos nos ensina: “não se mexe em time que
está ganhando”. É justamente pelas ações afirmativas que vamos ir, num processo
contínuo e longo, democratizando a sociedade e, assim, dando voz,
sistematização e, literalmente, poder para os que estruturalmente foram excluídos
da nossa sociedade, do currículo educacional, da política e, sobretudo, da
cultura. As elites irão gritar, espernear, xingar, fazer o que for para acusar vitimismo,
“mimimi” e outras coisas do gênero os que se levantam contra o seu sistema, e
os gritos que já ouvimos são sinais de que as coisas começaram a mudar e
incomodar.
Por enquanto ainda vamos
ter que levar o jogo nas regras do outro, o que infelizmente é um dado real e
concreto. Ainda precisamos, dentro da linguagem freiriana, educar em dois
sentidos, libertador e bancário, do estudante como depósito de conhecimentos.
Mas, conforme o ensino superior estiver se democratizando, num futuro cada vez
mais próximo, ainda poderemos sonhar com um modelo educacional plural, que como
ensinou o maior educador brasileiro, valorizem os seres humanos “na sua vocação
ontológica e história de ser mais”[4] em que as culturas possam
coexistir, não mais pela imposição autoritária, repressiva e excludente, mas num
permanente e fecundo diálogo. Só assim, realmente, poderemos superar a
compreensão colonialista e concretizar a nossa vocação ontológica: sermos cada
vez, mais.
[1] https://super.abril.com.br/comportamento/por-que-chamam-de-pelada/
[2] SARTRE,
Jean-Paul. Que é a Literatura?. 3. ed. Tradução de Carlos Felipe Moisés.
São Paulo: Ática, 2006, p. 203.
[3]
SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: da escravidão à Lava jato. Rio de Janeiro:
Leya, 2017, p. 97.
[4]
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, 58. Ed. revista e atualizada, Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 2014, p. 72.

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