Tentativa de argumentação lógica, racional e crítica sobre o #EleNão! (escrito em 10/2018 e compartilhado pelo Whatsapp)
Em 2018, durante a campanha do segundo turno das eleições presidenciais, no auge da polarização política, discursos inflamados e marcados pelo ódio, eu escrevi um texto tentando demonstrar, de maneira lógica e racional, o porquê do "Ele não". É claro que na época não era possível prever a crise provocada pelo COVID-19, e nem é esse o objetivo de publicar esse texto agora, pouco mais de dois anos da eleição, e verificar os erros e acertos dentro da análise política que fiz na época.
Tentativa de
argumentação lógica, racional e crítica sobre o #EleNão!
Eu
acredito no debate democrático. O que não podemos é cair na histeria e na
argumentação apelativa, baseada no medo e no terror, clichês, frases de efeito
e manipulação de imagens.
Por
exemplo: nos dois lados tem se inflado o discurso passional sobre o medo da
ditadura: a extrema direita acusa o PT de um risco a democracia com o perigo de
uma ditadura comunista ou bolivariana. O PT, por outro lado, acusa Bolsonaro de
querer implantar uma ditadura militar.
O
que é isso?! Parece que eu voltei no tempo para o auge da guerra fria. Dormi e acordei
antes de 1989? Esse risco, se não for impossível é muito remoto (opinião minha.
Se quer acreditar, por exemplo, na Ursal, ou em qualquer teoria
histérica/conspiratória, por mais absurda que seja, é escolha sua). Nossas
instituições democráticas estão independentes e fortalecidas (diga-se de
passagem, graças aos governos petistas), o congresso é plural e o judiciário
tem atuado cada vez mais.
Então
pode-se afirmar que ambas candidaturas são a mesma coisa? Afirmo ainda que não!
Então,
sem mais delongas, gostaria de destacar cinco pontos sobre o problema da
candidatura de Bolsonaro e os meus motivos principais, dentro de seu programa
de governo, para o #EleNão! Discordo de praticamente todas as opiniões desse
candidato, sobretudo seu conservadorismo moral, homofobia e machismo, mas
evitei utilizar citações antigas dele ou que foram ditas em momentos de
entrevistas etc. Busquei me pautar em seus projetos apresentados na campanha,
evitando argumentações maniqueístas ou termos de cunho moral.
1ª
Sua política econômica:
O
problema do Brasil não é o imposto, mas o imposto mal tributado, que pesa sobre
o pobre e a classe média. A proposta do candidato do PSL, de criar uma alíquota
única, vai na contramão de tudo o que um país desenvolvido pratica ou já
praticou para se desenvolver. 20% sobre a renda, mesmo isentando os que ganham
até 5 salários, continuaria sendo uma tributação onerosa para a classe média e
que pouparia os mais ricos. Segundo estudos da ONU, o nosso país já é o paraíso
dos super-ricos e, segundo dados da revista exame, é o 9º país com mais
bilionários do mundo, à frente da França, Itália, Canadá, Austrália, Dinamarca,
Suécia, Noruega e Japão, característica que indica o nosso subdesenvolvimento,
concentração de renda e desigualdades, decorrentes dessa forma de tributar
injusta.
Sobre
isso, sugiro verificar como é feita a tributação sobre renda, lucros,
dividendos e heranças nos países desenvolvidos e poderão observar que é
justamente o contrário que o candidato defende.
Além
disso, o neoliberalismo defendido pelo Paulo Guedes é insustentável. Quando,
nos anos 80, os EUA e o Reino Unido aderiram a esse modelo, já eram países com
uma economia desenvolvida, competitiva, bons salários e qualidade de vida. E,
de qualquer maneira, sempre acabam retornando ao protecionismo quando precisam
(muitos, inclusive, defendem a falência dessa teoria econômica depois da crise
de 2008). Abrir as portas para um livre mercado, em nossas condições, mataria
as nossas poucas indústrias e desenvolveria, no máximo, o agronegócio, que não
moderniza, não desenvolve, não distribuí renda e, muito menos, gera emprego.
2º
Política ambiental/agrária:
Para
mim, um dos pontos mais preocupantes. O projeto do candidato do PSL de unir o
ministério do meio ambiente ao da agricultura é uma das coisas mais terríveis
que eu já ouvi. Sem contar que ele ainda falou que colocará uma pessoa do
agronegócio liderando a pasta. Como se não bastasse, irá retirar o Brasil do
acordo de Paris sobre o meio ambiente e não dará espaço para nenhum tipo de
ativismo (pauta que ele reforçou em seu
depoimento depois do primeiro turno).
O
que ele quer com isso? Desmatamento, agrotóxicos, diminuição das reservas
indígenas, quilombolas etc. O que mais me preocupa é o possível aumento da
violência no campo, com policiais que, conforme já afirmou diversas vezes,
teriam licença para matar. Seria um massacre no campo (que inclusive já ocorre).
Imagine agora legitimado pelo Estado? Será que os que votaram nele terão
coragem de assumir o sangue que terão nas mãos?
3º Armamento:
Segundo
estatísticas, em São Paulo, 83% dos homicídios são provocados por motivos
fúteis (no Brasil, esse número é, aproximadamente 1/3 do total, com alguns
dados apontando para mais), como discussões de trânsito, briga entre vizinhos,
vingança e brigas familiares. Imagine esse povo armado!
É um
fato que o crime amplia a violência, mas não há nenhuma estatística comprovando
que o armamento a reduz. Pelo contrário, segundo o instituto Brasileiro de
Ciências criminais, o porte de armas de fogo aumenta em 56% a chance de um
assalto se converter em latrocínio.
4º
Educação
Além
de ser a favor da EC 95, que limita os gastos da educação (como os outros
gastos públicos), Bolsonaro e sua família já fizeram inúmeras declarações sobre
serem à favor de passar a educação superior para a iniciativa privada, segundo
eles, por causa da doutrinação marxista (o que revela mais uma vez como o seu
discurso é decorado, e demonstra total desconhecimento até mesmo do cenário
educacional global)
O
fato é que eles desconhecem completamente o assunto. O próprio candidato já
declarou que é à favor de transformar toda a educação em EaD (ensino à
distância) e que quer expurgar Paulo Freire das escolas brasileiras. Quando eu
li isso, senti um misto de tristeza e de vergonha... Paulo Freire é o professor
brasileiro mais conhecido no exterior, o terceiro teórico de educação mais
citado no mundo. Sua pedagogia é aplicada e/ou serviu de referência para
diversos países, inclusive de muitas escolas nos Estados Unidos (que temos que
concordar, não é marxista). E aqui ele é chamado de doutrinador. Destaco um
artigo da BBC Brasil, que explica como o nosso país nunca aplicou, de fato, o
método Paulo Freire. Talvez por isso as pessoas estejam pensando dessa maneira
hoje.
Sem
contar a associação da reflexão sobre gênero (e não ideologia de gênero, pois
gênero não é ideologia), que ele tanto associa com a esquerda quando, na
verdade, tem sua origem na sociologia americana e começou a ser pensada e
discutida no final dos anos 80.
5º Bolsonaro
é a encarnação, dentro do poder executivo, do que há de mais arcaico em nossa
política.
Você,
eleitor do Bolsonaro... Não se iluda. Ele não é o novo, pois já tem quase
trinta anos de carreira legislativa (pífia, por sinal). Não será aquele que
combaterá os privilégios dos políticos, pois votou a favor de todos os
privilégios da sua classe. Ele não vai mudar a política. Sabe por que eu afirmo
isso?
Ele
é o coroamento do que existe de pior, mais arcaico e retrógrado em nossa
política: a apelidada bancada BBB – Boi, Bíblia e Bala (aqui no sentido de munição,
e não do doce).
Toda
a sua campanha é focada nesses três termos e dialoga com esses grupos, personificados
nos três partidos mais corruptos que temos: DEM, MDB e PP (não, não é o PT que,
apesar de também ter corruptos, está bem abaixo desses no ranking). O candidato
do PSL é a entrega do poder para esse grupo, que mantém o nosso país no
arcaísmo tecnológico, econômico e social e que buscam, entre outras coisas, redução
de direitos trabalhistas, mais isenções fiscais, flexibilização do uso de
agrotóxicos, do código ambiental e das terras demarcadas, redução da maioridade
penal, porte de armas, interferência religiosa dentro do Estado etc.
Ele,
inclusive, no discurso após o resultado, já falou que buscará os quadros dos
outros partidos que tenham afinidade com o seu projeto. Vocês acham que ele
estava falando de quem? Ele pode não assumir publicamente isso, mas analisem o
seu discurso e seus apoiadores. Não precisa de muita capacidade especulativa
para perceber isso.
Eu
sei que será um pleito apertado. Escrevi isso mais para ficar como registro de
aviso. Torço para estar errado, pois quero o bem do meu país e que o nosso povo
não sofra mais com as injustiças que nos assolam. Afinal, depois de uma era de
esperança, com pleno emprego, a frustração sempre vem como uma bomba.
Não
voto no Haddad porque sou petista (apesar de concordar muito mais com este
candidato). Meu voto é, principalmente, #EleNão, pois a candidatura de
Bolsonaro representa a perpetuação, agora com maior força, de tudo aquilo que
eu sou contra e que eu considero as chagas do nosso país, aquilo que nos mantém
no atraso, impedindo o nosso desenvolvimento e, o que é pior, solidifica a nossa ordem arcaica, preconceituosa
e injusta.
Frederico Moreira Guimarães
Referências:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/20/opinion/1537447119_621795.html
https://exame.abril.com.br/economia/os-15-paises-do-mundo-com-mais-bilionarios-brasil-incluido/
https://exame.abril.com.br/economia/os-dez-paises-onde-mais-se-paga-imposto-de-renda/
https://forbes.uol.com.br/listas/2016/04/35-paises-que-mais-pagam-imposto-de-renda-no-mundo/
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/25/politica/1508939191_181548.html
https://igarape.org.br/o-controle-de-armas-salva-vidas/
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150719_entrevista_romao_paulofreire_cc
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-41820744
https://brasil.elpais.com/tag/bancada_bbb
https://www.google.com.br/amp/s/www.cartacapital.com.br/revista/844/bbb-no-congresso-1092.html/@@amp
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/583614-por-que-bolsonaro-nao-inventou-a-polvora-no-brasil

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