Extinguindo o Espírito: As duas pandemias do Brasil!

 Breve reflexão de Pneumatologia

Referência da imagem: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/01/4900481-falta-de-oxigenio-obriga-a-transferencia-de-235-pacientes-de-manaus-para-outros-estados.html

Acompanhando a triste situação da pandemia em Manaus, que chegou ao ápice com a falta de oxigênio, não pude deixar de pensar nessa passagem bíblica: “Não extingais o Espírito” (1Ts 5.19). Proponho como norte para essa reflexão analisar a política a partir da experiência teológica. Não sou bacharel em Teologia (não conclui a graduação) e, por isso, escrevo sem grandes pretensões. Quero apenas compartilhar uma reflexão a partir de uma analogia entre a Teologia do Espírito e o Brasil atual.

O Espírito Santo, em hebraico a Ruah, palavra que significa simplesmente “sopro”. O Sopro Divino! Por isso a Bíblia de Jerusalém simplesmente traduz Gn 1.2 como “um sopro de Deus agitava a superfície das águas”. Esse texto foi traduzido para o grego como Pneuma, daí que o estudo da teologia do Espírito Santo seja chamado de “Pneumatologia”. A nossa palavra “espírito” vem do latim spiritus, sempre com o mesmo sentido: sopro, respiração. E por que o sopro?

O sopro é o símbolo por excelência da vida. “Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2.7). O ser humano se tornou um nefesh, um ser animado por um sopro. Tornou-se cheio da Ruah divina, do sopro divino, e por isso adquiriu vida. Sem o Sopro divino, somos apenas matéria, barro, argila. O sopro nos deu a vida e tudo o que é característico de um ser vivente. Essa é a característica do Espírito. Por isso o Credo Niceno, lá no século IV coloca como característica central do Espírito ser o doador da vida: “E cremos no Espírito Santo, Senhor, doador da vida”. Na MPB temos uma reflexão também muito bonita de Gonzaguinha, que não era teólogo, mas tinha uma profunda sensibilidade e era completamente preenchido desse sopro de vida, quando escreveu em sua bela canção “O que é o que é”: Há quem fale que é um divino mistério profundo. É o sopro do criador numa atitude repleta de amor”.

Assim também o compreendeu Cristo que, após a ressurreição, disse aos discípulos: “A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Dizendo isso, soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.21-22). Jesus queria que os seus discípulos recebessem o Espírito, esse sopro divino doador da vida e, dessa forma, fossem cheios desse “Senhor, Doador da vida”. Temos aqui uma teologia profundamente enraizada na realidade, que pela nossa compreensão é animada (de anima, isto é, que tem alma) desse sopro divino, explicada pelo teólogo Jürger Moltmann da seguinte maneira:

Creio que hoje a santificação significa em primeiro lugar redescobrir a santidade da vida e o mistério divino em todas as criaturas, e defende-las contra as manipulações arbitrárias da vida e a destruição da terra por meio da violência pessoal e institucionalizada. Por originar-se da “Fonte da vida”, o Espírito Criador de Deus, e estar viva por meio dele, a vida tem de ser santificada, e ela o é quando vamos ao encontro de tudo que é vivo com reverência diante de Deus.[1]

Por isso, não pude deixar de comparar com a situação que vivemos atualmente em nosso país, sobretudo em Manaus. Num governo sem compromisso com a vida, não é nem um pouco surpreendente que acabe o ar, o sopro vital, o respeito pelo que temos de mais precioso em nós. Nesse momento em que eu escrevo esse texto, já chegamos a 207.095 mortes, 1.131 de ontem para hoje, com uma crise aguda de falta de oxigênio, reflexo de um governo sem o sopro da vida, mas profundamente comprometido com as “Obras da carne”, como Jesus bem observou ainda em seu tempo: “Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam dele. Jesus lhes disse: ‘Vós sois os que querem passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os corações; o que é elevado para os homens, é abominável diante de Deus” (Lc 16.14-15). Vemos uma desobediência de grupos que dizem agir em nome de Deus atuando para extinguir o espírito em nome de bens e riquezas.

Mas o Espírito é livre e sopra onde quer! Por outro lado, vemos pessoas tão comprometidas que revezam em bombeadores manuais, chamados ambu, para manter o sopro da vida, conforme reportagem da BBC News Brasil: “O médico, que relata prestar serviço em unidades de emergência de Manaus vinculadas ao governo estadual, diz que já participou em diversos plantões da chamada "escala do ambu" — um rodízio para realizar a ventilação manual, que exige esforço e tem duração variada para cada paciente. "Essa situação caótica muitas vezes exigiu passar noites inteiras ao lado do leito do paciente, fazendo uma escala do ambu, com colegas, técnicos e enfermeiros se revezando por longos períodos — às vezes meia hora, uma hora, uma hora e meia."[2]

São pessoas que apesar de todas as adversidades, mentiras, manipulações, conspirações etc, lutam pela vida! São pessoas cheias do Espírito e que, por isso, têm compromisso com a vida de todos, sobretudo de quem mais precisa: os mais pobres, as maiores vítimas da COVID. Nesse sentido, considero fundamental a explicação de Moltmann sobre o tão debatido mas pouco compreendido “pecado contra o Espírito Santo” (Mc 3.29): Nesse contexto, o “pecado contra o Espírito Santo” (Mc 3.29) deve ser visto como crime contra a vida. “Abafamos” o Espírito Santo quando abafamos a vida. Quando o Espírito Santos nos deixa e estamos “abandonados por todos os bons poderes”, restam apenas destruição, morte e apodrecimento.[3]

Entendo que existam diversas objeções, interpretações, críticas e comentários. Mas me coloco ao lado de uma tradição que não tolera a morte. A pergunta de Jesus nunca foi tão atual: “’É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou matar?’” Eles, porém, se calavam. Repassando então sobre eles um olhar de indignação, e entristecido pela dureza do coração deles disse ao homem: ‘Estende a mão’. Ele a estendeu, e sua mão estava curada’” (Mc 3.4-5). O projeto de Jesus é a cura, a vida, a inclusão (vem para o meio), e não a morte e o abandono. Por isso insisto, é muito simbólico que num governo tão anti-vida acabe justamente o oxigênio. Vivemos duas pandemias respiratórias: a do COVID e a da extinção do Espírito! Mas, uma boa notícia: as duas irão passar, pois o Espírito, além de doador da vida, é o nosso defensor.

Quero concluir com uma reflexão de um dos grandes Pais da Igreja dos primeiros séculos, Santo Irineu de Lyon, que nasceu no ano 130 e faleceu em 202. Num cristianismo que esquece as origens, é sempre bom recordar a tradição de onde viemos. Eu, como membro de uma Igreja Histórica, busco sempre aprender com os antigos em busca de lições para o presente. E, em Irineu, encontro uma lição valiosa, posso dizer até fundamental, e que parece esquecida: “A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”. [4]



[1] MOLTMANN, Jürger. A Fonte da vida: O Espírito Santo e a Teologia da vida. Tradução de Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2002, p. 56.

[2] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55674229

[3] MOLTMANN, Jürger. A fonte da vida, p. 61.

[4] LYON, Irineu de, apud, SINGLES, Donna. A Glória de Deus é o homem vivo: a profissão de fé de Santo Irineu. Tradução de Tiago José Risi Leme. São Paulo: Paulus, 2010, p. 191.


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