Extinguindo o Espírito: As duas pandemias do Brasil!
Breve reflexão de Pneumatologia
Acompanhando a triste
situação da pandemia em Manaus, que chegou ao ápice com a falta de oxigênio,
não pude deixar de pensar nessa passagem bíblica: “Não extingais o Espírito”
(1Ts 5.19). Proponho como norte para essa reflexão analisar a política a partir
da experiência teológica. Não sou bacharel em Teologia (não conclui a graduação)
e, por isso, escrevo sem grandes pretensões. Quero apenas compartilhar
uma reflexão a partir de uma analogia entre a Teologia do Espírito e o Brasil
atual.
O Espírito Santo, em hebraico
a Ruah, palavra que significa simplesmente “sopro”. O Sopro Divino! Por isso a
Bíblia de Jerusalém simplesmente traduz Gn 1.2 como “um sopro de Deus agitava a
superfície das águas”. Esse texto foi traduzido para o grego como Pneuma, daí que o estudo da
teologia do Espírito Santo seja chamado de “Pneumatologia”. A nossa palavra “espírito”
vem do latim spiritus, sempre com o mesmo sentido: sopro, respiração. E
por que o sopro?
O sopro é o símbolo por
excelência da vida. “Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou
em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2.7).
O ser humano se tornou um nefesh, um ser animado por um sopro. Tornou-se
cheio da Ruah divina, do sopro divino, e por isso adquiriu vida. Sem o Sopro
divino, somos apenas matéria, barro, argila. O sopro nos deu a vida e tudo o
que é característico de um ser vivente. Essa é a característica do Espírito. Por
isso o Credo Niceno, lá no século IV coloca como característica central do
Espírito ser o doador da vida: “E cremos no Espírito Santo, Senhor, doador da
vida”. Na MPB temos uma reflexão também muito bonita de Gonzaguinha, que não era teólogo, mas tinha uma profunda
sensibilidade e era completamente preenchido desse sopro de vida, quando
escreveu em sua bela canção “O que é o que é”: Há quem
fale que é um divino mistério profundo. É o sopro do criador numa atitude
repleta de amor”.
Assim também o
compreendeu Cristo que, após a ressurreição, disse aos discípulos: “A paz
esteja convosco! Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Dizendo isso,
soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.21-22). Jesus
queria que os seus discípulos recebessem o Espírito, esse sopro divino doador
da vida e, dessa forma, fossem cheios desse “Senhor, Doador da vida”. Temos
aqui uma teologia profundamente enraizada na realidade, que pela nossa
compreensão é animada (de anima, isto é, que tem alma) desse sopro
divino, explicada pelo teólogo Jürger Moltmann da seguinte maneira:
Creio que hoje a
santificação significa em primeiro lugar redescobrir a santidade da vida e o
mistério divino em todas as criaturas, e defende-las contra as manipulações
arbitrárias da vida e a destruição da terra por meio da violência pessoal e institucionalizada.
Por originar-se da “Fonte da vida”, o Espírito Criador de Deus, e estar viva
por meio dele, a vida tem de ser santificada, e ela o é quando vamos ao
encontro de tudo que é vivo com reverência diante de Deus.[1]
Por isso, não pude deixar
de comparar com a situação que vivemos atualmente em nosso país, sobretudo em Manaus.
Num governo sem compromisso com a vida, não é nem um pouco surpreendente que
acabe o ar, o sopro vital, o respeito pelo que temos de mais precioso em nós. Nesse
momento em que eu escrevo esse texto, já chegamos a 207.095 mortes, 1.131 de
ontem para hoje, com uma crise aguda de falta de oxigênio, reflexo de um
governo sem o sopro da vida, mas profundamente comprometido com as “Obras da
carne”, como Jesus bem observou ainda em seu tempo: “Os fariseus, amigos do
dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam dele. Jesus lhes disse: ‘Vós sois os que
querem passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os corações; o que
é elevado para os homens, é abominável diante de Deus” (Lc 16.14-15). Vemos uma
desobediência de grupos que dizem agir em nome de Deus atuando para extinguir o
espírito em nome de bens e riquezas.
Mas o Espírito é livre e
sopra onde quer! Por outro lado, vemos pessoas tão comprometidas que revezam em
bombeadores manuais, chamados ambu, para manter o sopro da vida, conforme
reportagem da BBC News Brasil: “O médico, que relata prestar serviço em
unidades de emergência de Manaus vinculadas ao governo estadual, diz que já
participou em diversos plantões da chamada "escala do ambu" — um
rodízio para realizar a ventilação manual, que exige esforço e tem duração variada
para cada paciente. "Essa situação caótica muitas vezes exigiu passar
noites inteiras ao lado do leito do paciente, fazendo uma escala do ambu, com
colegas, técnicos e enfermeiros se revezando por longos períodos — às vezes
meia hora, uma hora, uma hora e meia."[2]
São pessoas que apesar de
todas as adversidades, mentiras, manipulações, conspirações etc, lutam pela
vida! São pessoas cheias do Espírito e que, por isso, têm compromisso com a
vida de todos, sobretudo de quem mais precisa: os mais pobres, as maiores
vítimas da COVID. Nesse sentido, considero fundamental a explicação de Moltmann
sobre o tão debatido mas pouco compreendido “pecado contra o Espírito Santo”
(Mc 3.29): Nesse contexto, o “pecado contra o Espírito Santo” (Mc 3.29) deve
ser visto como crime contra a vida. “Abafamos” o Espírito Santo quando abafamos
a vida. Quando o Espírito Santos nos deixa e estamos “abandonados por todos os
bons poderes”, restam apenas destruição, morte e apodrecimento.[3]
Entendo que existam
diversas objeções, interpretações, críticas e comentários. Mas me coloco ao
lado de uma tradição que não tolera a morte. A pergunta de Jesus nunca foi tão
atual: “’É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou
matar?’” Eles, porém, se calavam. Repassando então sobre eles um olhar de
indignação, e entristecido pela dureza do coração deles disse ao homem: ‘Estende
a mão’. Ele a estendeu, e sua mão estava curada’” (Mc 3.4-5). O projeto de
Jesus é a cura, a vida, a inclusão (vem para o meio), e não a morte e o
abandono. Por isso insisto, é muito simbólico que num governo tão anti-vida
acabe justamente o oxigênio. Vivemos duas pandemias respiratórias: a do COVID e
a da extinção do Espírito! Mas, uma boa notícia: as duas irão passar, pois o
Espírito, além de doador da vida, é o nosso defensor.
Quero concluir com uma reflexão de um dos
grandes Pais da Igreja dos primeiros séculos, Santo Irineu de Lyon, que nasceu no
ano 130 e faleceu em 202. Num cristianismo que esquece as origens, é sempre bom
recordar a tradição de onde viemos. Eu, como membro de uma Igreja Histórica, busco
sempre aprender com os antigos em busca de lições para o presente. E, em Irineu,
encontro uma lição valiosa, posso dizer até fundamental, e que parece esquecida:
“A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”. [4]
[1]
MOLTMANN, Jürger. A Fonte da vida: O Espírito Santo e a Teologia da vida.
Tradução de Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2002, p. 56.
[2] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55674229
[3]
MOLTMANN, Jürger. A fonte da vida, p. 61.
[4] LYON,
Irineu de, apud, SINGLES, Donna. A Glória de Deus é o homem vivo: a
profissão de fé de Santo Irineu. Tradução de Tiago José Risi Leme. São Paulo:
Paulus, 2010, p. 191.

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