O festim dos urubus e a raiva do boi

 Reflexões sobre o MBL e a Política

Referência da imagem: https://gazetadetuntum.wixsite.com/gazetadetuntum/single-post/2017/03/17/os-abutres-e-a-carni%C3%A7a

Este título precisa de uma breve explicação para ser compreendido, começando pela ave título, o urubu. Lendo o verbete da Britânnica Escola, encontramos duas características que chamam atenção: “se alimentam da carcaça de animais mortos” e “Como não têm predadores naturais, e encontram farta oferta de alimento no lixo gerado pelas cidades, os urubus multiplicam-se sem problemas”. O urubu, portanto, se alimenta principalmente de carniça e, por isso, depende que a sua presa morra para que possa viver.

O primeiro título, O festim dos urubus, é uma sátira a partir da tropicalização do título do quarto volume das Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin, obra menor dentro dos cinco volumes, mas não menos importante, pois narra a ascensão dos grupos menores na trama, a partir do cadáver das grandes casas, após os massacres em A tormenta de espadas e o fim da “Guerra dos cinco reis”. O objetivo desta pequena reflexão será analisar o modus operandi de um movimento que tem uma existência similar, o Movimento Brasil Livre – mais conhecido como MBL, que tal qual urubu, se alimenta de cadáveres políticos. Este encontrou um verdadeiro banquete em 2013 e continua voando em círculos, até encontrar outra vítima para se alimentar.

O primeiro banquete foram as grandes manifestações de rua convocadas pelo MPL (Movimento Passe Livre) contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo pelo então prefeito Fernando Haddad. Porém, tal qual pavio, a faísca criada fez explodir um barril de pólvora escondido, alimentado por acontecimentos muito anteriores e que estavam adormecidos, ou melhor, encubados, com vergonha ou simplesmente falta de argumentação, contra os bons índices econômicos alcançados pela “Era Lula”, que nas palavras de Laura Carvalho, em seu recente e já clássico estudo da era PT e da crise decorrente, chamado “Valsa Brasileira”, criaram um “milagrinho” econômico. Foi pouco, mas o suficiente para que antipetismo ensaiado desde a eleição de 2002, criasse com a liderança do atual governador de São Paulo, João Dória, e de diversas celebridades da TV, o movimento “Cansei” em 2007, mas que no final soou apenas como um constrangedor movimento elitista desconectado da realidade.

Referência da imagem: http://cartunistasolda.com.br/movimento-cansei/


Referência da imagem: https://bcharts.com.br/t/agora-calada-relembre-quando-ivete-sangalo-participou-de-movimento-anti-lula/159899


O MBL e diversos movimentos liberais de direita, alimentados pelo antipetismo, foram para as ruas, dessa vez com “bala na agulha”, alimentados pela insatisfação com o governo do PT. Acontece que, na eleição de 2014, Dilma foi reeleita por uma margem muito apertada, o que foi suficiente para que o resultado da eleição fosse questionado, explodindo em diversos movimentos pré-impeachment a partir do ano seguinte. O MBL se banqueteou do antipetismo mais do que nunca. Diversos nomes famosos desse movimento entraram na política em todos os níveis. Com um discurso simplificado, “internetês”, linguagem jovem e apelo humorístico, esse movimento transformou o debate político em “memes”, facilmente compartilhados em redes sociais e plataformas de comunicação. Através de uma mistura de liberalismo político, conservadorismo, antipetismo, antissocialismo, antibolivarianismo, exaltação dos EUA (que desconhecem completamente a verdadeira história) e humor adolescente, rapidamente se espalharam, sobretudo em meios jovens. O antipetismo teve a sua carcaça chupada até o tutano do osso e continua alimentando o discurso desse grupo até hoje. E o festim dos urubus só estava começando.

Sobre essa estratégia, podemos ler na dissertação de mestrado Os "Memes do MBL" e a Vinculação de Públicos Afetivos em Rede durante o Impeachment de Dilma Rousseff, de Allan Carlos dos Santos, o seguinte:


Munida de um tom agressivo, confrontador, difamatório e emocionalmente apelativo, a linguagem dos memes de Internet é apropriada com intensidade pelo MBL em sua estratégia de ação populista liberal durante as manifestações a favor do impeachment, traduzindo lutar por uma “sociedade mais livre, justa e próspera” em remover Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores do poder. Somente durante os períodos analisados pela pesquisa – compreendidos em torno das três votações do processo no Congresso Nacional em 2016 – foram postados no Facebook um total de 795 conteúdos imagéticos e textuais produzidos pelo movimento (perfazendo uma média de 12,61 memes/dia): 351 entre os dias 07 e 27 de abril; 263 entre 02 e 22 de maio; 181 entre 21 de agosto e 10 de setembro. A partir da revisão teórica apresentada na seção subsequente, identificaremos conceitualmente os conteúdos digitais do MBL, questionando se os multimodais são de fato memes de Internet ou apenas antigos gêneros midiáticos – peças retóricas de propaganda política – vestidos com a linguagem dos memes para exercerem funções específicas durante o processo do impeachment.[1]


Compilação de vários memes do MBL elaborados em 2016, auge do banquete dos urubus e momento em que o Bolsonarismo começaria a tomar forma. 


Referência da imagem: recorte de SANTOS, Allan Carlos dos. Os “Memes do MBL” e a Vinculação de Públicos Afetivos em Rede durante o Impeachment de Dilma Rousseff – Rio de Janeiro, 2019. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação, Programa de Pós-Graduação em Comunicação, 2019, p. 50.

E quando o antipetismo perder a sua força de persuasão? Não podemos nos esquecer que o MBL apoiou o governo Temer e, mesmo que indiretamente, surfou da onda do bolsonarismo, ajudando a chocar o “ovo da serpente”. Porém, prevendo o colapso desse movimento, já se prepara para um novo banquete em 2022. Provavelmente estarão entre os famintos que irão brigar (ou melhor, já estão brigando) pela carcaça do bolsonarismo.

Este tema me lembro do quadro humorístico criado por Chico Anísio, Arnaud Rodrigues e Renato Piau, nos anos 70, "Baiano & os novos Caetanos" (paródia de Chico Anísio para Caetano e os Novos Baianos), que infelizmente não pude assistir na época (nasci nos anos 80), mas conheci as músicas que, com a genialidade característica de seus autores, transcenderam a pura comédia e tornaram-se atemporais. Lançaram dois álbuns de grande sucesso na época e, ainda hoje, aclamados pela crítica.

Na imagem: Arnaud Rodrigues e Chico Anísio caracterizados como Paulinho e Baiano - humor como crítica da Ditadura Militar e do Milagre Econômico.

Arnaud Rodrigues e Chico Anísio
Referência da imagem: https://artebrasileiros.com.br/cultura/o-desbunde-tropicalista-de-chico-anysio-e-arnaud-rodrigues/

Do disco, destaco uma canção que pode ser uma verdadeira crônica da política atual (de autoria de Geraldo Nunes e Venâncio) "Urubu tá com raiva do boi" :

Urubu tá com raiva do boi
E eu já sei que ele tem razão
É que o urubu tá querendo comer
Mais o boi não quer morrer


Como profetas do fim do mundo, acertaram em quase tudo! Afinal, em tempos que se apregoa a necessidade da união da esquerda para combater o fascismo, esquecemos de olhar que a direita também está totalmente fragmentada, como demonstrou a eleição de 2020. Todos grupos pequenos que veem no bolsonarismo seu alimento, como o urubu da música esperando para comer o boi (metáfora acidental) caído, enfraquecido, sozinho e, agora, com a saída de Trump, sem dono, esperando para ver quem irá se banquetear primeiro. É aí que o MBL acredita sair na frente: se aperfeiçoaram na arte da necrofagia política como ninguém, pois nenhum movimento político se fortaleceu tanto em matar a política. Entre piadas, memes e lacração, vão cativando uma audiência infantilizada que se sente consciente e inteligente ao compartilhar algo falando mal de políticos. Mas, como tudo, estão batendo nos limites de um publico adolescente e de uma direita sob disputa de quem seria mais "direita raiz", com os mais conservadores cada vez mais distantes do movimento.

Em 2022 veremos o verdadeiro "festim dos urubus" e o MBL precisa, mais do que todos os outros grupos, se alimentar desse cadáver, se quiser o protagonismo político que tanto sonha. O problema é que, assim como na canção, o boi não quer morrer. Já podemos mirar um novo alvo do urubu, cada vez com mais raiva do boi.



[1] SANTOS, Allan Carlos dos. Os “Memes do MBL” e a Vinculação de Públicos Afetivos em Rede durante o Impeachment de Dilma Rousseff – Rio de Janeiro, 2019. Dissertação (mestrado) -- Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação, Programa de Pós-Graduação em Comunicação, 2019, p. 49.





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