Quando a vida era mais real: a intensidade do passado segundo Huizinga

Estudos a partir de "O outono da Idade Média" - parte 1 



Johan Huizinga (1872-1945) foi um importante historiador e linguista holandês, com grandes contribuições para o campo da história cultural e teoria da história. Entre seus escritos, o mais famoso é o clássico O outono da Idade Média, publicado em 1919 e que se tornou uma obra prima dos estudos culturais. Nela, Huizinga analisa os processos históricos que levaram ao declínio do medievo e a transição para a modernidade a partir de fontes que não eram convencionais para a historiografia da época, como a arte e a literatura, principalmente as obras de Jan van Eyck. A primeira edição dessa obra lançada no Brasil pela extinta Cosac Naify era um primor, com tamanho grande, capa dura e ilustrações das pinturas referenciadas por Huizinga, mas era extremamente cara na época e hoje, quando encontrada para venda em boas condições, pode chegar a custar até R$ 3.000,00. Posteriormente, a editora Penguin lançou uma edição bem mais acessível na sua coleção “Clássicos”, apenas com a famosa pintura O casal Arnolfini na capa, mas sem as belas ilustrações da versão da Cosac Naify, porém com o texto integral, o que já ajuda bastante (existe mais uma edição em português, mas sem o texto integral).


Johan Huizinga

Referência da imagem: https://estadodaarte.estadao.com.br/bom-entendedor-longo-suspiro-huizinga/

 

Pretendo trazer uma série de textos, a partir dos capítulos dessa excepcional obra, que se inicia justamente com a veemência da vida: quando a vida era sentida mais intensamente pelas pessoas, nas brilhantes palavras de Huizinga que abrem o capítulo:

 

Quando o mundo era cinco séculos mais jovem, tudo o que acontecia na vida era dotado de contornos bem mais nítidos que os de hoje. Entre a dor e a alegria, o infortúnio e a felicidade, a distância parecia maior do que para nós; tudo que o homem vivia ainda possuía aquele teor imediato e absoluto que a felicidade e a dor até hoje têm no espírito infantil.[1]

 

Huizinga quer destacar como a vida, no medievo, era sentida de forma mais intensa, porque se acentuavam mais as diferenças entre as alegrias e as dificuldades. O clima e suas alterações eram mais sentidos. A vida era mais dependente da natureza e os elementos ainda conservavam uma aura mística que, somados à “veemente”  religiosidade, tornava o sobrenatural amalgamado à vida, coisa que nós homens e mulheres criados numa mentalidade científica pós-iluminismo e seu projeto de “desencantamento do mundo”, nem conseguimos imaginar. A imaginação, por sinal, é outra coisa que hoje precisamos desenvolver muito menos. Numa época como a nossa em que os meios de comunicação fazem o papel de reproduzir tudo da “forma mais fiel e realista possível” e a tecnologia aliada à computação gráfica permitiram que o cinema nos torne possível visualizar a magia e o milagre de forma “convincentes” para um padrão racionalista, a pessoa do baixo medievo tinha a pregação, a pintura e o vitral como fontes de inspiração, mas a vida em si já era colorida e encantada o suficiente para ser experimentada de modo quase fantástico.

Essa intensidade vivenciada no século XIV, sentida principalmente pelos contrastes, hoje está cada vez mais ausente. Somos intensos na contemporaneidade, mas sentimos pouco isso em nossas vidas. Como exemplo, Huizinga apresenta a diferença entre a cidade medieval e a moderna, conforme a citação abaixo:

 

Assim como o contraste entre verão e inverno era mais severo do que para nós, também o era o contraste entre luz e escuridão, silêncio e ruído. A cidade moderna praticamente desconhece a escuridão e o silêncio profundos, assim como o efeito de um lume solitário ou de um grito distante.[2]

 

Huizinga estava mais preocupado em descrever as formas de vida que levaram ao “outono”, isto é, ao declínio medievo. Mas, não podemos deixar de refletir sobre tão simples e profunda constatação: não vivenciamos mais a ausência em profundidade, seja de luz, de som ou de estímulos. Com exceção de quem vive nas zonas rurais do Brasil, que a escuridão profunda e o silêncio ainda podem ser “sentidos”, mas de maneira muito menor do que no passado, onde não havia automóveis e nem eletricidade, praticamente desconhecemos tal sensação em intensidade. O céu estrelado que atraía tantos olhares e era a única fonte de luz diante da densa escuridão, hoje perdeu protagonismo diante da artificialidade da luz elétrica. Os sons do mundo raramente são ouvidos, principalmente numa época em que fones de ouvido raramente saem das orelhas e as músicas são executadas e escutadas num esquema frenético ininterrupto. O menor sinal de solidão já provoca crises, que poderiam até ser causadas por uma certa abstinência de estímulos. Isso não pode causar a falsa impressão de falta de vida, tal como o cinema que quando retrata um filme medieval insiste em usar uma lente fria, de tons marrons ou cinzas.  O que havia, justamente, é o que hoje temos cada vez menos: o contraste, a alternância entre esses extremos de noite e dia, frio e calor, fome e abundância, doença e saúde, intrepidez e medo, guerra e paz. O mundo moderno, sob a industrialização constante e uniforme, tem padronizado não só a vida humana, mas o mundo, tornando tudo uma contínua e perene monotonia de intensidades.

 

Referência da imagem: https://www.ricardocosta.com/extratos-de-documentos-medievais-sobre-o-campesinato-secs-v-xv

 

O nosso objetivo aqui não é produzir uma apologia do período, mas analisar as formas de vida à luz das reflexões de Huizinga em comparação com o presente. No fundo, a impressão geral que fica da baixa idade média é a de um clima sombrio, sobretudo por causa das pregações apocalípticas e da sensação de um fim iminente as acompanhavam. Afinal, esse mundo de grandes contrastes, em que a realidade se impunha com uma força irresistível sobre os humanos, não era um mundo fácil. Fica uma reflexão: não seria o refúgio para a confortadora realidade virtual uma forma de fugir cada vez mais dessa dura realidade que se impõe. Um mundo à imagem e semelhança do humano seria mais fácil de viver, mas sem seus contrastes, são os contrastes humanos que agora se impõem e se mostram tão implacáveis e duros quanto os do mundo.


HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média: estudo sobre as formas de vida e de pensamento dos século XIV e XV na França e nos Países Baixos. Tradução de Francis Petra Janssen. São Paulo: Pengguin; Companhia das Letras, 2021.



[1] HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média, p. 41.

[2] Ibid, p. 42.

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