Minha Brasília Amarela II
Reflexões sobre os dias 01 e 08 de janeiro de 2023
No dia 04/06/2020 eu escrevi uma breve reflexão intitulada “Minha Brasília Amarela: O presidente ‘Cavalo de Tróia’, o ‘Neomalufismo’ e o país dos 30%”, em que tentei dar uma contribuição sobre o momento político do Brasil. A minha tese é a de que o “bolsonarismo” nada mais é do que um fenômeno recorrente na história do Brasil, e que na minha infância, foi chamado de “malufismo”. É a busca de uma liderança que pudesse encarnar os ideias de um grupo social que se sentia à margem do poder político.
Dentro do termo “Bolsominon”, se formos mais precisos, encontraremos diversos outros grupos menores como religiosos fundamentalistas, que podem ser pentecostais, neopentecostais, católicos ultraconservadores e outros grupos cristãos, que aqui deixam suas diferenças de lado por um objetivo político comum (muitos desses são olavistas); saudosistas da ditadura militar e antigos malufistas, que sentem saudades de um governo que defenda a polícia na rua e repressão violenta; preconceituosos, racistas e homofóbicos que consideram o “politicamente correto” como “mimimi” e encontraram em Bolsonaro uma voz para suas ideias, hoje sem espaço na mídia, e uma tentativa de retorno para um mundo em que poderiam se expressar livremente sem serem recriminados pelas suas opiniões; e, por fim, conservadores de qualquer espécie. Em suma: o bolsonarismo não é nada novo no Brasil. É simplesmente um renascimento do malufismo dos anos 80 e 90, que não tinha acabado, só estava hibernando até ser acordado pelos programas sensacionalistas e humorísticos que, em busca de piadas e polêmicas, repetiam as frases do então deputado “exótico e sem papas na língua” à exaustão. O “bolsonarismo”, portanto, é o malufismo dessa geração, o que nos permite cunhar o termo “Neomalufismo”.
Esse grupo se sentia excluído dos avanços democráticos, mesmo que pequeno, das últimas décadas anteriores ao golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência. Queriam retomar o Brasil. Afinal, nosso país sempre foi um país de uma minoria branca privilegiada. E como diversos estudiosos mostraram sobre os acontecimentos do dia 08/01, que de agora em diante deveríamos adotar o termos utilizado pelo senador Randolfe Rodrigues para descrever os atos de vandalismo dessa data, bem como a tentativa frustrada de destituir os poderes da república pela via da força: dia da infâmia! E foi um dia de cara branca porque, como acertadamente observou o professor Silvio de Almeida, outros grupos sociais seriam barrados muito antes de se aproximarem da Praça dos Três Poderes. “Esse incidente foi mais uma prova cabal do tamanho do racismo no Brasil”, afirmou a professora da Universidade Federal Fluminense, Ynaê Lopes dos Santos[1]. E não foi aleatória a escolha da data, uma semana após a posse do presidente Lula.
E aqui proponho irmos mais
além. Desde o texto “Minha Brasília Amarela”, já defendia a tese de que os
bolsonaristas lutariam até o fim para defenderem o governo Bolsonaro. Afinal, era
o governo deles e a última vez que se sentiram tão representados havia sido
durante a ditadura militar. Como o Brasil apostou no esquecimento e não na
correção história, o esquecimento passou e agora esses grupos pararam de sentir
vergonha de defender a ditadura. Mas, tivemos um acontecimento ainda mais grave
para eles, e que não aguentaram suportar: a posse de Lula. Bolsonaro apostou
que, se abandonasse o Brasil sem passar a faixa, criaria um constrangimento
para o novo governo. Mas, o “tiro saiu pela culatra”. A posse de Lula foi um
sucesso “nunca visto nesse país”. A alternativa escolhida, de pessoas que
representam a face do povo Brasileiro, de passarem a faixa para o novo
presidente foi tão certeira, que atingiu em cheio o “orgulho” dos bolsonaristas.
Era demais para eles. Já não bastava o presidente Lula, agora perderiam sua
Brasília amarela não para uma Brasília vermelha, mas para uma Brasília multicolorida
e multiétnica. E a foto do presidente Lula subindo a rampa do planalto com pessoas
que representam toda a diversidade do povo brasileiro viralizou pelo mundo. E a
ideia ainda não era nem de Lula, mas da sua esposa, Janja. Volto a repetir:
isso era demais para eles!
Referência da imagem: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64142066
O sucesso da posse feriu
profundamente o orgulho bolsonarista e da sua cafona Brasília amarela. Não
tinham outra solução senão destruir tudo aquilo. Não foi apenas um ato anti-Lula,
mas um ato contra essa nova Brasília – ou melhor, contra essa nova face do
Brasil – que eles não queriam aceitar. Não foi à toa que a invasão de Brasília
ocorreu apenas uma semana depois da posse de Lula. O principal elemento
motivador foi a cerimônia e o sucesso da posse, em que minorias historicamente
excluídas estariam ascendendo àquilo que representa o poder político no Brasil.
Tinham que tomar sua Brasília de volta.
Entre todas as imagens do
dia da infâmia, penso que nenhuma simboliza mais o que representa o
bolsonarismo em Brasília do que essa, um homem enrolado na bandeira do Brasil, defecando
durante a invasão ao STF. O ato de defecar sobre algo é carregado de muitos símbolos
e, nesse caso, pode representar, entre outras coisas, que estão cagando para as
leis, para a justiça e, literalmente, para o Brasil. Como veremos mais adiante, tal gesto, bem como o "roubo" do texto original da Constituição de 1988, é uma recusa a um projeto de país que eles se opõem. Essa é a verdadeira cara
desse movimento que se identifica como patriótico, conservador e cristão.
O que proponho aqui,
portanto, é a ideia de que o ataque e a depredação do congresso e da sede dos
três poderes em Brasília, bem como a “tentativa” de tomada de poder, não podem ser
analisados apenas como um ato de “bolsonaristas radicais”, mas sim como
sintomas de um fenômeno muito mais denso e profundo. Não duvido que teriam
feito coisa parecida afinal, tentativas já haviam sido feitas anteriormente,
como o malfadado movimento “trezentos de Brasília” e a tentativa de atentado no
dia da diplomação de Lula, pois, como já afirmei anteriormente, eles irão lutar
até o fim para defender o governo deles. Mas, ter acontecido uma semana após a posse
não é algo que devemos ignorar, bem como o fato de serem, majoritariamente
brancos, cristãos, conservadores e apoiados por uma elite, principalmente
agrária. Os atos de Brasília foram consequência direta daquela imagem da subida
da rampa de Lula com representantes de negros, indígenas, deficientes,
catadores, trabalhadores, pobres, isto é, da diversidade do povo brasileiro.
Não é esse o povo que eles querem ver no centro do poder do Brasil. A posse de
Lula foi um golpe no orgulho bolsonarista, mas a cerimônia da posse feriu muito
mais profundamente a alma deles do que poderíamos imaginar e exigiu uma atitude
muito mais imediata, radical e violenta.
E aqui precisamos dar o
nome verdadeiro aos bois: eles não são patriotas, mas sim fascistas. Usar as
cores da bandeira brasileira ou uma camiseta da CBF não faz ninguém,
automaticamente, patriota. Mas, o uso de um uniforme de identificação do grupo,
o seguimento cego de um líder que sabe guiar a nação de forma correta e usa
títulos como “duce, fuher, capitão”, o ódio aos grupos diferentes, o discurso
moralista e o medo de qualquer mudança na sociedade tem um nome: fascismo.
Jessé Souza, ao analisas
diversas frações da classe média brasileira, identificou uma delas como “protofascista”.
O livro A elite do atraso já identificou o modus operandi desse
grupo, de uma forma atualíssima (o livro é de 2017), principalmente após o
golpe de 2016:
O golpe lhe trouxe o mundo onde pode expressar legitimamente seu ódio e ressentimento. O ódio às classes populares é aqui aberto e dito com orgulho, como expressão de ousadia ou sinceridade. O protofascista se orgulha de não ser falso como os outros e pode dizer o que lhe vem à mente. O mal e o bem estão claramente definidos e o bem se confunde com a própria personalidade.[2]
Mas, indiretamente, os
atos do dia 08/01 também nos possibilitaram algo importe. Não é a discussão se
o presidente Lula sai ou não fortalecido ou se o bolsonarismo se enfraqueceu.
Essas discussões não irão resolver os nossos problemas. Ao agirem tão
violentamente contra a subida do povo brasileiro à rampa do Alvorada no dia
01/01, os bolsonaristas escancararam a necessidade que o Brasil tem de olhar e
enfrentar o seu passado de exclusão e violência, se quiser, de fato, se
desenvolver como nação. Como escreveu Jessé Souza:
Nosso atrasado real foi nunca ter realizado os aprendizados sociais e políticos que conduziram em outros lugares a sociedades mais justas e igualitárias, sem “subgente” e vidas abandonadas e esquecidas jogadas no lixo do desprezo e da humilhação cotidiana. É isso que faz com que nossa modernidade seja seletiva, excludente e doente.
Para que possamos realizar esses aprendizados sociais concretos, no entanto, precisamos mudar a percepção que temos de nós mesmos e de nossa sociedade. Dependendo da forma como nos percebemos é que podemos mudar as prioridades e ter clareza dos desafios reais de nossa sociedade. Uma sociedade não se muda com uma agenda programática caída do céu. Uma sociedade se transforma quando a percebemos de modo mais verdadeiro e crítico. Uma percepção modificada e crítica muda a sociedade por dentro e de modo capilar e abrangente, posto que transforma, também, todo o nosso comportamento nela.[3]
Para terminarmos essa
reflexão, concluímos afirmando, com todo o coro do nosso jornalismo, que os
atos foram “contra a democracia”. Mas, na grande maioria das vezes, o
entendimento de democracia desses grupos, representados pela grande imprensa
brasileira, se restringe apenas à eleição. Não é contra essa democracia que
eles estão se opondo. Afinal, ninguém questiona o resultado das eleições para
governador e para o legislativo. Quando os bolsonaristas se opõem à vitória de
Lula, não estão apenas questionando o processo eleitoral brasileiro, mas o que
ele representa, simbolizados na subida da rampa em 01/01 e na entrega da faixa
pelo povo brasileiro. A democracia que eles combatem é a que visa, de fato, dar
“poder para o povo”, conforme a etimologia da palavra indica. Não podemos reduzir
a tentativa de tomada de poder como um simples “não aceitar o resultado da
eleição”. A violência cometida tentou ser proporcional ao sucesso da posse, e conseguiu.
Querem o Brasil deles de volta: o Brasil do preconceito, do racismo, da
exclusão. O Brasil em que apenas uma minoria que podia ir à Disney e que se
orgulha de “não ser latino-americana”, mas descendentes de europeus, impondo
assim à grande maioria da sua população uma subcidadania, nas palavras do
professor Jessé Souza. Por isso os atos podem ser chamados de “anti-democráticos”:
não apenas porque eles não aceitam o resultado das eleições de 2022, mas porque
querem perpetuar o Brasil oligárquico. E mais: querem a sua Brasília amarela de
volta, com o presidente que lhes representa, pois não tem vergonha de vociferar
todo ódio, preconceito, ignorância e desprezo pela vida. Por isso é tão urgente
olharmos para o nosso passado de forma crítica. Se realmente entendermos que o
dia 08/01 não foi simplesmente um ato desesperado de vândalos contra o
resultado das eleições, mas também uma reação contra o sentido profundo da
posse de Lula, vamos entender, de fato, o que está em jogo nesse momento: a
luta entre um grupo que quer o país preso a um passado que beneficia uma
minoria; ou a de um país que urge pelas mudanças necessárias, se quisermos, de
fato concretizar todos os ideais e sonhos que construíram a Constituição de 88.
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