Os profetas do capitalismo ou os áugures de Mamon
Crítica aos comentaristas de economia da TV e da Internet
Em cada época histórica
era comum uma classe sacerdotal ser consultada para previsões sobre do futuro.
Eles interpretavam os desígnios dos deuses nas estrelas, em voos de pássaros, em
formas de fumaça e, até mesmo, nas entranhas de animais sacrificados. Na Roma
antiga até havia um colégio sacerdotal especializado para isso: o colégio dos áugures,
que sempre eram consultados antes de decisões importantes, como o início de uma
batalha, por exemplo. Saber interpretar os sinais dos deuses era fundamental
para elaborar uma estratégia e tentar garantir uma vitória – ou o agrado das
divindades – o que for mais fácil ou mais urgente.
Isso nos mostra que os
seres humanos sempre buscam uma forma de prever o futuro. O mundo é inseguro,
inconstante, instável e a nossa busca por segurança nos leva sempre atrás de presságios
do futuro. Afinal, decidir se casar, trocar de emprego, viajar, ter um filho
ou, simplesmente, saber o que nos aguarda no futuro, nos trás paz e segurança
para vivermos. Por isso que, apesar de todo o nosso avanço científico e tecnológico,
as revelações nunca saírem de moda. Em São Paulo não é incomum andarmos por
pracinhas ou vermos barraquinhas nas ruas com pessoas oferecendo serviços de
quiromancia ou cartomancia. Em igrejas, principalmente de origem pentecostal ou
carismática, também são comuns as chamadas “revelações e profecias”, em que uma
pessoa, movida pelo Espirito Santo, traz uma palavra sobre o futuro de alguém.
O efeito, tão comum, é o mesmo, só se muda a placa da instituição.
E, assim como em Roma
havia o colégio dos áugures para interpretar os presságios, hoje temos um
equivalente a altura, que podemos chamar de “colégio dos economistas”. É claro
que existem economistas sérios, éticos e responsáveis. E não estou me referindo
a esses. Estou, isso sim, é criticando aqueles que se consideram intérpretes
dos presságios econômicos contemporâneos e adoram, no sentido exato do termo,
revelar o futuro. E afirmam com tamanha convicção que parece que quando a
profecia não se concretiza, não foi o áugure que se equivocou, mas a realidade!
Tal posição é muito comum em “influenciadores de economia”, procurados por
pessoas que não apenas querem revelar o futuro, como também pagam para saber o
que fazer. Tal posição de áugure também é comum em comentadores de economia na
mídia, que aproveitam momentos especiais dentro do principal jornal de uma
emissora, para transmitirem sua interpretação dos presságios do “deus mercado”,
o que os governos deveriam fazer e os riscos que correm de não seguirem seus
conselhos. Eles não estão fazendo economia e nem política, mas sim religião!
São os profetas do capitalismo ou, se preferirem, os áugures de Mamon: o deus
dinheiro!
Referência
da imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mamon
É muito comum entrarmos
na internet e nos depararmos com influenciadores de economia e investimento
fazendo seus augúrios a partir da interpretação dos presságios. Sobre a queda
da China então – o alvo preferencial deles por representar a maior antagonista
do livre-mercado – é quase que cotidiano. Estão prevendo a queda da China desde
o começo dos anos 2000, mas como isso não acontece, já está virando uma
profecia messiânica, quase como o apocalipse: pode não cair hoje, mas um dia
cai, é inevitável.
Agradar o mercado é como
agradar uma divindade: ele deve ser saciado. Ele também tem vontades próprias:
se alegra, se enfurece, se preocupa, se anima... O economista lê seus
presságios e nos ensina o que fazer para aplacá-lo e saciá-lo corretamente,
pois sua fúria pode ser terrível, gerando desemprego, fome, miséria, empobrecimento
e violência.
É assim, pelo menos, que eles
se apresentam. E esse pensamento religioso, para ser mais aceito pelo mundo
contemporâneo e seu criticismo, vem travestido de científico. Então, ao invés
de se apresentarem como profetas, se apresentam como cientistas. E no lugar dos
presságios, o que fazem são análises. Mas essas análises científicas são tão
infalíveis quanto uma declaração pontifical ex cathedra ou a inerrância
escriturística subvertendo a própria ideia da cientificidade de seu ofício.
Não se enganem: ciência não é atividade inerrante! Quem se apresenta como
inerrante é a religião! E não todas, é claro, mas principalmente aquelas que recusam
a crítica e se voltam para o passado, em busca da segurança dogmática de seus
princípios eternos e imutáveis.
Por isso que, logo no
início, destacamos que nem todos os economistas são dessa forma. E é por isso
também que cito um grande economista contemporâneo, o sul-coreano e professor
no Reino Unido, Ha-Joon Chang. Em sua excelente obra Economia: modo de usar,
logo nas primeiras páginas, o autor adverte o seguinte:
Em especial nas últimas
décadas, as pessoas foram levadas a acreditar que, assim como a física ou a
química, a economia é uma “ciência”, em que há apenas uma resposta correta para
tudo; e assim, os não especialistas devem simplesmente aceitar o “consenso
profissional” e parar de pensar no assunto.[1]
A conclusão é muito
simples e muito racional: não existe uma única economia e nem uma única maneira
de julgar a realidade econômica. Uma resposta única, pronta, definitiva, capaz
de dar conta de explicar toda a realidade, não é ciência, mas religião. E se
essa resposta vir acompanhada de uma explicação sobre uma entidade a-material,
que toma as melhores decisões e que precisa ser aplacada, aí o que temos é idolatria.
E se essa realidade for o dinheiro/Mamon, aí já caímos no campo da Goetia. Mas, felizmente, a economia não é isso. E o que ela é, afinal?
Sem
dar spoiler da excelente obra de Chang, o autor não deixa de dar uma definição clara, crítica e muito perspicaz: “a economia é uma disputa política. Ela não é – e nunca
pode ser – uma ciência; não há verdades objetivas na economia que possam ser
estabelecidas independentemente de julgamentos políticos, e com frequência de
julgamentos morais”[2]. E, se ela não é ciência,
muito menos pode ser convertida em uma religião. O autor deixa uma pergunta fundamental,
que deve ser feita sempre que uma análise política é realizada: “a quem isso
beneficia?” Pergunta extremamente válida e pertinente, e que não é válida
apenas para a economia. “A quem isso beneficia?”, a pergunta de Marco Túlio
Cícero, é a questão que devemos fazer sempre que virmos
alguém profetizando respostas infalíveis para o futuro. Só assim descobriremos de verdade os interesses políticos e ideológicos por trás dos ditos presságios, interpretações e profecias que são tão cruéis com os mais pobres, mas milagrosamente atendem sempre os interesses das elites que trasvestem e exibem habilmente, e porque não dizer, maquiavelicamente, seus interesses pessoais como se fossem interesses de todos.
[1]
CHANG, Ha-Joon. Economia: modo de usar. Tradução de Isa Mara Lando e
Rogério Galindo. 7º reimpressão. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2015, p. 16.
[2]
Ibid, p. 409.
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