Uma régua para um mundo torto: o realismo do passado segundo Huizinga.

 Estudos a partir de o Outono da Idade Média - parte 2


Referência da imagem: https://www.researchgate.net/figure/Figura-2-Cidadaos-de-Tournai-Enterrando-os-Mortos-Durante-a-Peste-Negra-Iluminura-do_fig2_370478809


Após esse hiato, se pode-se chamar de hiato um intervalo tão grande de tempo, retomo, com a processa de tentar ser mais regular, essa série de estudos da clássica obra O outono da idade média do linguista holandês Johan Huizinga (1872-1945). Ainda no primeiro capítulo, "A veemência da vida", podemos destacar vários aspectos culturais relevantes do período, que nos ajudam a desmistificar uma certa visão idealizada, tanto para o mal quanto para o bem.

Para o mal, encontramos uma perspectiva oriunda do iluminismo, de apresentar o medievo - também denominado cristandade - como uma era de trevas, ignorância e retrocesso cultural. Por outro lado, existe a perspectiva "do bem", que tende a ver no período uma era moralmente superior, em que a humanidade vivia seguindo exemplarmente os conselhos e orientações da Igreja, e que por isso seria de fato uma "cristandade" ou uma civilização cristã, que passou a se degenerar moralmente após a modernidade. Há cerca de dois anos, por exemplo, viralizou uma entrevista da DJ e comentarista da Jovem Pan, Pietra Bertolazzi no podcast À Deriva, em que a convidada, na época no auge dos debates políticos que agitaram a polarizada eleição presidencial, defendeu uma sociedade sem Estado, mas com uma regra moral cristã, dando como exemplo a idade média, que na visão da entrevistada, seria uma sociedade ideal. É interessante observar como o recuo agora passou a anteceder a modernidade, em busca de uma referência para valores considerados perenes e que, por isso, deveriam ser resgatados pela sociedade contemporânea.

Ora, o que ela, e grande parte das pessoas que compartilham tal mentalidade desconhecem, ou ocultam intencionalmente, é que o medievo não foi um período homogêneo, sendo isso muito mais um projeto da Igreja Católica em sua busca de universalidade, do que foi de fato. Se o primeiro milênio a Europa estava fragmentada em inúmeros reinos "bárbaros" com línguas, culturas, tradições e religiosidades diferentes, isso até a primeira "unificação" política de Carlos Magno, coroado imperador no Natal de 800, não podemos deixar de observar a artificialidade de tal unificação. A idade média foi, de fato, um período plural que não se conteve e explodiu de vez na virada para o segundo milênio, sobretudo por causa dos três fatores que desencadearam seu esgotamento: a fome, a peste e a guerra.

Huizinga observa que esse pluralismo se converte, na baixa idade média, em partidarismo político (ou achavam que polarização era apenas uma coisa dos dias de hoje). Vejamos o que diz o autor sobre isso:


A adesão ao soberano tinha um caráter impulsivo e infantil; era um sentimento muito espontâneo de lealdade e companheirismo, uma extensão da concepção antiga e forte que ligava os compurgadores aos reclamantes, os homens a seu senhor, e que nas rixas e no calor da luta fazia arder uma paixão desenfreada. É um sentimento de partido, não um sentimento de nação. O fim da Idade Média é a época das grandes lutas partidárias.¹



Não posso deixar de destacar o caráter "infantil" dessa adesão ao soberano e o sentimento de partido, não de nação, evocados pelo autor, que em muito se assemelha à infantilidade em que questões políticas são tratadas na contemporaneidade, mas que revelam a profundidade desse elemento perene na humanidade, bem como a tendência de sua acentuação em momentos de crise. Huizinga destaca que esse partidarismo, também influenciou o Cisma do Ocidente entre Avignon e Roma, já que nessa época o Papa estava longe de ser a figura presente dos dias atuais e era conhecido, quando muito, apenas de nome, mas isso não o impediu de se transformar em uma "causa partidária mordaz e violenta"².

Também não deixa de ser estranho que, em uma sociedade com uma regra moral tão rígida quando é a Idade Média, na visão da entrevistada, também se conviva com tamanha sede de violência e vingança. Isso nos leva à duas conclusões: ou a moral cristã é uma moral que se formou em distância aos ensinos de Jesus Cristo; ou o mundo, para além da régua moral, não era tão reto assim. O mais correto seria dizer: uma régua para um mundo torto, mas essa conclusão não representa, de fato, o mundo em todas as épocas?

Johan Huizinga dá, como exemplo, o senso de justiça, que para ele permanecia nessa época 3/4 pagão, já que ainda consistia numa violenta sede de vingança. Coisa que de fato ainda permanece, mas que é em grande parte controlado por compreensões universalistas dos direitos humanos, o que torna o nosso mundo muito menos violento do que a cristandade o foi. Vejamos o que o autor diz sobre isso:

A Igreja tentara moderar os costumes legais, insistindo na benevolência, na paz, na clemência, mas o senso de direito propriamente dito não tinha mudado. Pelo contrário, ela o havia exasperado, acrescentando à necessidade de punição o horror ao pecado. Para o espírito violento, o pecado passa a ser, com bastante frequência, aquilo que o inimigo faz. A ânsia por justiça chegou ao ponto máximo da tensão entre os polos da noção bárbara de "olho por olho, dente por dente" e da aversão religiosa ao pecado; ao mesmo tempo, o dever do Estado de punir severamente parecia cada vez mais uma necessidade urgente. No fim da Idade Média, torna-se crônico o sentimento de insegurança, o medo que, a cada crise, exige das autoridade um reinado de terror. (...) O fim da Idade Média foi a época de ouro da justiça severa e da crueldade judiciária.
O que nos impressiona na crueldade judiciária do fim da Idade Média é menos a perversidade doentia do que a alegria animalesca e embrutecida do povo, a atmosfera de quermesse.³

Essa "atmosfera de quermesse" já denota a característica nada cristã da relação da população com a violência, transformada em espetáculo. Daí o destaque para a tortura de Maximiliano em Bruges, no ano de 1488, em que todo o povo não apenas acompanhou entusiasmadamente a tortura junto com o rei, como adiaram a execução, para que o povo desfrutasse ainda mais desse momento. Ou, em caso até mesmo inconcebíveis para um católico contemporâneo, a negação da confissão e da comunhão na hora da morte, como forma de condenar ainda mais os suplícios dos condenados, para uma pena eterna.

Huizinga conclui tão sombrio capítulo com a frase "esse é um mundo mau. A chama do ódio e da violência arde vigorosamente, a injustiça reina, o demônio cobre com suas asas negras a terra em trevas. Todos eperam o fim iminente de tudo. Mas a humanidade não se converte; a Igreja combate e vão" (p. 75). E aqui chegamos no ponto central da nossa reflexão: longe de ser um período de flores ou de sangue, é um período de contrastes, como toda época o é. Afinal o século XX, no auge do seu esclarecimento e do iluminismo triunfante, não só frustrou todas as expectativas de paz, como construiu o maior morticínio na história. O medievo também foi uma era de extremos, em que a religião tentava, como sempre tentou, não só a religião, como diversos líderes na história, impor uma régua moral rígida sobre um mundo torto, comprovante que, apesar de chamarmos tal período de cristandade, esse nome se refere muito mais à hegemonia política da fé cristã do que uma hegemonia de fato, em que o povo e os reis, apesar de nomeadamente cristãos, viviam muito mais como pagãos, como podemos observar nas pinturas do também holandês Hieronymus Bosch. E é dentro esses extremos que se observa, no brilhante título de Huizinga, a veemência da vida.

Referência da imagem: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/88/Hieronymus_Bosch_-_The_Garden_of_Earthly_Delights_-_Garden_of_Earthly_Delights_%28Ecclesia%27s_Paradise%29.jpg


¹ HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média, p. 61.
² Ibid, p. 63.
³ Ibid, p. 65.

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