Ainda faz sentido o conceito de pós-modernidade?

 A condição humana na contemporaneidade

Referência da imagem: https://conceito.de/pos-modernismo

A partir da segunda metade do século XX, em especial o final dos anos 70 e início dos anos 80 do século passado, começou a se desenvolver um conceito novo para interpretação e compreensão da condição humana hodierna: pós-modernidade. Tal conceito surge a partir da constatação de que os paradigmas que nortearam a formação do ocidente moderno haviam chegado a um esgotamento, de modo que vivemos uma nova época, conforme explica Wilmar do Valle Barbosa no prefácio da obra de Jean-François Lyotard "A condição pós-moderna", caracterizada pela "incredulidade perante o metadiscurso filosófico-metafísico, com suas pretensões atemorais e universalizantes"(1). Em outras palavras, vivemos uma crise dos sistemas, das metanarrativas, da noção de verdade e de centro.

O sujeito moderno é personificado no sujeito cartesiano. A máxima expressa na frase cogito ergo sum, da busca de René Descartes por uma verdade indubitável no capítulo quatro do "Discurso do Método" nasce de uma confiança na razão de buscar fundamentos sólidos e, nas palavras do autor, indubitáveis, para o conhecimento. A partir de tais princípios, poderiam ser construídos sistemas de explicação do ser humano e do mundo. A primeira certeza cartesiana é o "Eu", que ser tornaria todo coluna de sustentação do pensamento moderno, fundado no antropocentrismo e no mecanicismo, cujo ápice podemos identificar no pensamento iluminista: a razão humana que traz a luz para o mundo.

O pós-moderno, justamente, se baseia na compreensão de que o ocidente contemporâneo, a partir do século XIX, tem passado por processos históricos, sociais, econômicos e culturais que levaram ao descentramento desse sujeito moderno cartesiano iluminista, começando pela questão da identidade. O sociólogo jamaicano Stuart Hall, em "A identidade cultural na pós-modernidade", nos apresenta cinco descentramentos que levaram à desconstrução do sujeito moderno cartesiano e contribuíram para a identidade pós-moderna.


1. O marxismo

Karl Marx teve grande importância na crítica as concepções universalistas do ser humano. Tanto que ele também é identificado por Paul Ricoeur como um dos três "mestres da suspeita". Para Hall, Marx "deslocou duas proposições-chave da filosofia moderna: (1) que há uma essência universal de homem; (2) que essa essência é o atributo de 'cada indivíduo singular'(2). Temos em Marx uma crítica aos sistemas metafísicos de explicação do ser humano. É a história, a realidade contingente e finita o local onde o ser humano e as sociedades são criadas e desenvolvidas, de modo que se quisermos entender o ser humano, temos que nos voltar para essa realidade.


2. A psicanálise

Sigmund Freud, também identificado como um dos três mestres da suspeita, com a psicanálise, teve uma contribuição gigantesca para a desconstrução da identidade moderna. "A teoria de Freud, de que nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formados com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente, que funcionam de acordo com uma 'lógica' muito diferente da razão, arrasa com o conceito do sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada - o 'penso, logo existo', do sujeito de Descartes"(3). Para nós, contemporâneos, tão acostumados à noção de inconsciente, tal conceito não causa mais estranhamentos. Porém, para o mundo da transição do século XIX para o século XX, tal conceito produziu rupturas profundas. O sujeito racional não é consciente de seus processos internos e da sua constituição psíquica. Isso foi um golpe de morte na razão universal.


3. A linguagem

Hall apresenta a importância de Ferdinand de Saussure e a linguística estrutural, mas aqui podemos colocar toda a reflexão acerca dos estudos linguísticos contemporâneos. "A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ele preexiste a nós"(4). A conclusão é a de que o ser humano pensa, existe e se relaciona no mundo através de um sistema preexistente a ele, um sistema social e cultural, que condiciona a nossa forma de pensar e ver o mundo. O ser humano é produto de sua linguagem, e não o contrário. Ele não fixa as normas de sua linguagem e por isso não tem consciência de todos esses processos que o constituíram como sujeito.


4. A genealogia do sujeito

O quarto dos descentramentos está relacionado ao trabalho do filósofo Michel Foucault, que através da genealogia do sujeito moderno, identifica que o sujeito é formado por mecanismos de poder. Foucault nomeia o mecanismo que surgiu na modernidade de "Poder disciplinar", cujo objetivo é formar um corpo dócil e produtivo, para a sociedade industrial que se formava a partir do século XVIII. Foucault tornou o ser humano consciente de estruturas de poder que escapavam à análise política convencional, mostrando que o próprio sujeito moderno é o resultado dessa microfísica do poder.


5. O impacto do feminismo

O feminismo é um dos maiores, senão o maior, dos movimentos sociais que eclodiram a partir dos anos sessenta na busca de direitos sociais e políticos. Ele é tanto uma crítica teórica, como um movimento social, que busca a emancipação da mulher e a análise crítica das estruturas patriarcais que fundamentaram a civilização ocidental. É um movimento, que apesar do forte aspecto coletivo, também destacou a importância dos elementos subjetivos na luta por emancipação, sendo fundamental na formação dos outros movimentos de desconstrução que surgiram na segunda metade do século passado. Os impactos do feminismo são visíveis até os dias de hoje, influenciando diretamente a forma como as identidades passaram a se compreendidas e desvelando estruturas de poder que o sujeito racional moderno davam como acabadas e universais.

Dessa forma, o sujeito pós-moderno pode ser compreendido como um sujeito descentrado, cuja identidade "fixa e estável" da modernidade, deu lugar às "identidades abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas" (5) e, porque não, fluidas, do sujeito pós-moderno.


Mas esse conceito foi muitas vezes erroneamente compreendido como uma nova etapa da história, posterior à idade moderna. Tal compreensão ainda se baseia no paradigma moderno, de que a história caminharia rumo a um progresso constante e que, dentro dessa perspectiva cronológica evolutiva, passaríamos por estágios - também chamados "idades", como aprendemos a escola nas primeiras aulas de história - que serviriam para a análise e compreensão dos processos humanos e sociais.

O pós-moderno não é uma nova idade ou etapa da história, assim como o "contemporâneo" também não pode ser compreendido como uma nova categoria. O pós-moderno é apenas um termo utilizado para designar justamente a dissolução de categorias para a compreensão da história. Como escreveu um dos filósofos que mais contribuiu para a consolidação do termo, Gianni Vattimo: "O pós de pós-moderno indica, com efeito, uma despedida da modernidade, que, na medida em que quer fugir das suas lógicas de desenvolvimento, ou seja, sobretudo da ideia da 'superação' crítica em direção a uma nova fundação, busca precisamente o que Nietzsche e Heidegger procuraram em sua peculiar relação 'crítica' com o pensamento ocidental" (6). Desse modo, podemos dizer que ainda faz sentido o conceito de pós-modernidade?

Se utilizado como categoria de novo, para identificar uma nova etapa da história, não! Mas ele nunca pretendeu ser isso. O conceito de pós-modernidade é apenas um conceito cunhado para tentar identificar a condição humana hodierna. Todos esses processos identificados por Lyotard, como o fim das metanarrativas; Hall, como os descentramentos que o ocidente passou no último século; e Vattimo, com a experiência da "morte de Deus" em Nietzsche (que é o terceiro dos mestres da suspeita) e o "esquecimento do ser" em Heidegger, só servem para identificar que vivemos não em uma nova etapa ou idade, mas que justamente essa compreensão, tipicamente moderna, encontrou seu outono, seu ocaso. Por isso, penso que ainda faz sentido falarmos em pós-modernidade para compreendermos a contemporaneidade. O ser humano hoje vive o fim das grandes narrativas, o descentramento do sujeito, experiencia as identidades fluidas, instáveis, abertas. Ele também vivencia a experiência do fim da ideia de verdade e a crise da razão. Tal conceito também não é uma apologia de tudo isso, mas a constatação decorrente da análise existencial humana, aquilo que Sartre denominou a náusea, no livro homônimo, quanto Antoine Roquentin, a exemplo de Descartes que em sua busca de uma verdade indubitável, encontra o cogito ergo sum, Roquentin encontra a contingência e a finitude - o fim de todos os absolutos. Por isso, o que não faz sentido é dizer que "tal sujeito é um pós-moderno" ou que tal filósofo "é um pós-modernista". O que, de fato, se quer quando se nomeia o ocidente contemporâneo de pós-modernidade, é compreender, à luz desses processos citados, como de fato se constituem o ser humano e o mundo, para além da pura teoria, também conseguirmos agir.

Referência da imagem: https://phvox.com.br/paradoxos-da-solidao-contemporanea/


REFERÊNCIAS

(1) LYOTARD, Jean-Fraçois. A condição pós-moderna, p. 10.

(2) HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade, p. 23.

(3) Ibid, p. 23.

(4) Ibid, p. 25.

(5) Ibid, p. 28.

(6) VATTIMO, Gianni. O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna, p. VII.

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