Quando o horror se torna belo:

 O cinema contemplativo de Robert Eggers



Cena de "A Bruxa", primeiro longa-metragem da carreira do diretor, roteirista e produtor Robert Eggers.
Referência da imagem: https://cosmonerd.com.br/listas/a-bruxa-2015-curiosidades-sobre-o-filme-de-robert-eggers/



O cinema contemporâneo, tão caracterizado pelos filmes de Super-heróis do MCU e da DC comics, franquias de ação como Velozes e Furiosos e filmes de terror adolescente, repletos de sustos baratos com jumpscare e histórias repetitivas de espíritos, possessões e casas assombradas, torna-se cada vez mais raro diretores que conseguem se impor às ordens de grandes estúdios para produzirem obras autorais, com identidade visual própria, como é o caso de Ari Aster, do já classico "Hereditário" e "Midsommar"; Jordan Peele, dos ótimos "Corra!" e "Nós"; Yorgos Lanthimos, de "O lagosta", o premiadíssimo "A Favorita", e "Pobres criaturas"; e, por fim Robert Eggers, de "A Bruxa" e o lançamento "Nosferatu", remake do clássico do Expressionismo Alemão de F. W. Murnau, lançado em 1922 (e que já havia sido refilmado em 1979, pelo também genial Werner Herzog, com o título "Nosferatu, o vampiro da noite"). Porém, de todos esses, apesar de reconhecer o talento, originalidade e genialidade de todos citados até aqui, considero que o que mais me impressiona é Eggers, que será o foco desse breve ensaio de interpretação.

Eggers, em sua breve carreira, já conseguiu fazer o que grandes cineastas demoram uma vida inteira para conseguir: deixou sua identidade, de modo que já é possível compreender um filme a partir da sua visão, como uma obra de "Robert Eggers". Seu cinema, focado quase inteiramente no horror (a exceção até agora é o também excelente "O homem do norte"), conseguiu ser, ao mesmo tempo, um cinema apavorante, mas belo, quase contemplativo, similar aos filmes do grande cineasta Carl Theodor Dreyer. O horror para Eggers surge como um momento particular da vida, em que todos passamos, uma situação de total angústia e desespero, que quebra completamente a normalidade da existência. E, da mesma forma que quando experimentamos o horror e o desespero, eles se manifestam com tamanha intensidade que é impossível ignorar ou fugir, impondo-se com vigor agônico e desesperador, o seu cinema reproduz a veemência da vida, quase de forma monótona, para que o ritmo também seja quebrado pelo horror. O seu cinema proporciona, assim, uma profunda imersão na realidade cotidiana e na vida dos seus personagens, produzindo no espectador uma "quase" experiência de vivência, seja pelo rigor e detalhismo hiperbólico na construção de mundo, seja pela forma como o horror quebra a rotina e universaliza a experiência individual do mal vivenciado.

Em "A Bruxa", filme lançado em 2014, vemos uma família puritana na Nova Inglaterra, fundamentalista religiosa, que ao ser expulsa de sua comunidade (não sabemos o motivo), tenta levar sua vida próximos a uma floresta, local em que o mal se faz presente, mas de forma oculta. Quando o filho caçula, que estava sendo cuidado pela irmã mais velha, desaparece, a família toda passa a ser vítima do mal provocado por essa bruxa desconhecida, mas que é sentida por todos os membros de forma diferente. A forma como os diálogos foram escritos, baseando-se em textos do auge da caça às bruxas do século XVIII, combinado com elementos elucidados pela psicanálise contemporânea, nos levam a entender o mal como algo do qual é impossível se fugir, pois está presente em nossa própria condição.

Referência da imagem: https://pocilga.com.br/2016/03/critica-bruxa-the-witch-2015/


"O Farol", lançado em 2019, é o filme mais autoral até agora lançado por Eggers. Feito em preto-e-branco, marca a parceria do diretor com Willem Dafoe, que irá participar de todos os outros filmes de Eggers. É um filme claramente inspirado no Expressionismo Alemão (e, para mim, também no cinema de Dreyer e Bergman), de caráter minimalista, mostra o cotidiano de dois faroleiros - um velho e um jovem, recém chegado - que pela rotina extenuante e profunda solidão, começam não apenas a perder a sanidade, como a perceber coisas misteriosas que acontecem no local. O filme é recheado de simbolismos, sendo o maior deles o farol, não só como elemento de busca e iluminação, mas de perdição para o ser humano.

O Farol. Referência da imagem: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2020/01/02/o-farol-cria-experiencia-intrigante-e-perturbadora-para-amantes-do-terror-e-do-suspense-g1-ja-viu.ghtml

Já em "O homem do norte", lançado em 2022, Eggers sai um pouco do terror que o consolidou como cineasta (digo um pouco, porque ele é um elemento ainda presente nesse filme), para apresentar um conto dinamarquês do século X, que teria inspirado o Hamlet de Shakespeare. Dessa forma, a história não seria uma novidade, já que desde o "Rei Leão", praticamente é impossível alguém que não conheça essa história. Aqui, além da riqueza de detalhes e construção de mundo, marca indelével do diretor, vamos imergir e vivenciar a vida de Amleth como viking, seu cotidiano e rituais. Mais uma vez o detalhismo do diretor extrapola de forma rara para o cinema nos dias de hoje. Destaco, em especial, o ritual Berserker e a cena do duelo final.

Por fim, em seu último lançamento "Nosferatu", de 2024 (lançado no Brasil em 2025), que já é o seu maior sucesso comercial, Eggers reconta à sua maneira a história do filme de 1922 que, como muitos já sabem, é a mesma história do Drácula de Bram Stoker mas que, para não pagar direitos autorais, mudou o local da Inglaterra para a Alemanha, e o nome dos personagens (o conde Drácula tornou-se conde Orlok, por exemplo), o que não foi suficiente para que o filme não fosse acusado de plágio e, por isso, fosse processado e tivesse suas cópias destruídas (sorte que sobraram algumas). Em Nosferatu, porém, o vampiro não é um ser nobre e galante, mas sim a encarnação do horror, percebível em sua aparência monstruosa - a anti-humanidade - e pela peste, que carrega consigo para onde vai. Mais uma vez, Robert Eggers usa seu detalhismo historiográfico e antropológico na construção do mundo, mas também usa de elementos psicológicos na construção dos seus personagens, ao ponto de o mal ser atraído pelo desejo reprimido. Eggers consegue fazer o que poucos diretores conseguem em suas filmografias, que não é melhorar e nem piorar, mas manter-se constante, produzindo obras de excelência uma após a outro. E posso dizer que até agora ele não desapontou.

O horror em Eggers não é para dar susto, como as sessões pipoca adolescentes de cinema; mas também não é para causar apenas medo. É um filme que causa uma estranha combinação de beleza e mal-estar. É um cinema contemplativo, acima de tudo. E temos que comemorar que ele siga produzindo e resistindo com tamanha qualidade. São filmes para serem vistos e apreciados, principalmente, em tela grande. Mas, na falta desse recurso, o importante é assistir e se impressionar com sua capacidade técnica e narrativa. Quando dizemos que o horror se torna belo, não queremos fazer uma apologia do terror, mas mostrar que mesmo a vida, em sua singularidade, é única, com seus medos e horrores. Em um mundo tão cheio de beleza - seja por procedimentos estéticos, filtros e outros recursos artificiais, o horror de Nosferatu ganha ainda mais significado - é o horror que tentamos a todo custo fazer desaparecer, mas que sempre retorna trazendo o mal e a destruição por onde passa. É a face feia da humanidade que pode ser derrotada quando, de fato, aprendemos o que a humanidade tem esquecido nesse mundo tão atribulado: a novamente contemplar a beleza, mesmo daquilo que a todo custo teimamos em esconder.


Referência da imagem: https://revistapurgante.com/el-dulce-corazon-de-las-bestias-nosferatu-de-robert-eggers/

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