Sobre Religião e Religiosidade

O paganismo e o cristianismo: reflexões a partir de um Carnaval em 2005.


 Referência da Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Religi%C3%A3o_na_Roma_Antiga


No Carnaval de 2005, ainda postulante da Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula, há quase vinte anos atrás, eu e meus companheiros de seminários fizemos uma viagem para o município de Cachoeira Paulista, para participarmos do acampamento de carnaval da comunidade Canção Nova, uma das maiores, mais antigas e importantes comunidades da Renovação Carismática Católica (RCC) no Brasil, fundada pelo monsenhor Jonas Abib (falecido em dezembro do ano passado) no final dos anos setenta. Não ficamos acampados, mas alugamos uma pequena pousada, com um grupo que era do movimento. A rotina do evento era pesada, com atividades o dia inteiro, que se alternavam, basicamente, em pregação e louvor, além da Missa no fim da tarde, longuíssima, com homilia de exatos sessenta minutos de duração. Não que o nosso formador na época fosse da RCC, muito pelo contrário. Ele, como homem de cabeça aberta que era, achava importante conhecermos o movimento, assim como diversos outros movimentos e espiritualidades da Igreja. Assim, nós também tínhamos uma rotina mais livre e, por isso, tiramos um dia para conhecermos a cidade.

Distantes da sede da Canção Nova, o turismo religioso diminuía, e vimos que a cidade era muito bonita. É uma típica cidade do interior do São Paulo, próxima ao Vale do Paraíba. Vale destacar a antiga estrada de ferro e sua belíssima estação de Cachoeira Paulista que, apesar de desativadas, revelam como o seu passado havia sido majestoso. E, em nossa caminhada, nos deparamos com um animado bloquinho de carnaval.

Não pude deixar de pensar no contraste: no dia anterior, a pregação do monsenhor Jonas Abib era, radicalmente, anticarnaval. Destacava os aspectos pagãos da festa, a gula, vaidade, avareza, promiscuidade. Temas típicos desse tipo de movimento religioso. Afinal, a RCC é uma vertente pentecostal, mas católica. Me lembro com bastante clareza dos detalhes com que o pregador associava o personagem “rei momo” aos pecados capitais. Como a comunidade estava lotada e a cidade estava curiosamente calma, a impressão que dava era a de que todos estariam no retiro. Ledo engano. Apesar da aparência, o povo de Cachoeira Paulista também tem suas alegrias para além da religião e nem tudo se concentra na Canção Nova. Eu cheguei a comentar com um amigo meu da época, também postulante, uma teoria de “paganização” da sociedade: a ideia de que, apesar dos esforços da religião cristã institucionalizada, a sociedade tem uma tendência para desenvolver também uma religiosidade própria, ligada ao corpo e à vida, isto é, uma tendência natural ao paganismo. Lógico que isso não era nada sério e não passavam de breves comentários de conversas isoladas, mas esse contraponto, aparentemente contraditório, nunca deixou de me chamar atenção. Apesar dos esforços da religião “catequizar” as pessoas, exorcizando-as das suas práticas religiosas populares, as pessoas sempre encontram um jeitinho de extravasar.

Ainda criança, minha mãe também tinha o hábito de me levar em retiros religiosos, que mais tarde eu descobri que também eram da RCC, e as pregações também eram muito semelhantes, sempre contra as práticas festivas populares e suas manifestações religiosas. Hoje, quando olhamos o discurso religioso de grupos neopentecostais, a pregação também se concentra fortemente em combater as práticas religiosas populares, que também se converteram em religião. E, quando olhamos a história, percebemos que essa preocupação do cristianismo não é de hoje e, da mesma maneira que eu pensei naquela pueril teoria da paganização da sociedade, também poderia pensar numa teoria contrária, de que a religião sempre tenta controlar as manifestações religiosas populares. Sobre isso, é muito oportuna a leitura desse fragmento abaixo, de um documento medieval elaborado por Bernardo de Worms, intitulado Decretorum libri, orientando contra a prática de costumes considerados pagãos[1]:

1. Você tem consultado ou chamado magos para irem à sua casa a fim de conhecer ou purificar alguma coisa com a sua arte maléfica; ou bem, seguindo o costume dos pagãos, tem pedido aos adivinhos a predição do futuro como se fossem profetas? Tem recorrido aos sortilégios ou àqueles que através das sortes dizem prever o futuro, ou tem convidado na sua casa os que praticam augúrios e encantamentos.

Nesse fragmento, vemos uma orientação da Igreja muito parecida com orientações de hoje, contra práticas de previsão do futuro, oráculos, astrologia, quiromancia, cartomancia etc. É interessante observar que tais práticas hoje, por incrível que pareça, são extremamente comuns em igrejas cristãs, com o nome de “revelações”. A diferença é que, fora de uma autoridade eclesiástica ou quando profetizada desvinculada de algum versículo bíblico, ela se torna herética. Ainda cito mais dois trechos do decreto, que merecem destaque e podem elucidar nossa breve reflexão:

2. Tem praticado os atos pagãos, que foram transmitidos de pais para filhos até os nossos dias quase como um direito hereditário por instigação do diabo, isto é, honrar os elementos, como a lua, o sol, o curso das estrelas, o novilúnio, o eclipse da lua, à qual acreditavas poder restituir o seu esplendor com os teus gritos, ou tem acreditado que tais elementos podiam ajuda-lo e você ajuda-los? Tem esperado o novilúnio para acertar os seus negócios ou para concertar matrimônios?

3. Tem celebrado as calendas de janeiro, segundo os usos pagãos, fazendo no ano novo algo mais do que costumava fazer antes e depois, arrumando nesse dia, na sua casa, a mesa com lâmpadas e pratos diversos, cantando e dançando pelas ruas e praças; ou tem-se sentado no telhado da sua casa dentro do círculo traçado à tua volta com uma faca, a fim de prever o que te aconteceria no ano seguinte...?

Aqui, vemos rigorosas orientações contra práticas de religiosidades relacionadas à natureza. O item 2 é uma proibição expressa contra práticas astrológicas, em especial as lunares, afirmando serem de “instigação do diabo”. É interessante observar que as práticas de “esperar a lua nova”, em certo sentido, sobrevivem e foram incorporadas por diversos tipos de movimentos esotéricos e em simpatias populares, demonstrando como a religiosidade, principalmente a proveniente do encantamento com a majestade da natureza, sempre buscam formas de se adaptar para sobreviver. Não representariam, no íntimo do ser humano, um reconhecimento da magnitude do universo e da nossa pequenez diante da inesgotável beleza e mistério que nos cercam. Da mesma forma, os ritos de novilúnio (lua nova), assim como os ritos de Ano Novo, nada mais são do que os mesmos ritos (estes últimos ligados ao ciclo solar), e também podem ser considerados como formas dessa religiosidade popular em sua relação festiva e de contato com a natureza, em que, apesar da aparência secularizada, representam o desejo de renovação, assim como a esperança de construção de um futuro melhor, conforme observou o grande especialista romeno em religiões e suas simbologias, Mircea Eliade, em sua obra Mito e realidade:

A renovação por excelência tem lugar no Ano Novo, quando se inaugura um novo ciclo temporal. Mas a renovatio efetuada pelo ritual do Ano Novo é, no fundo, uma reiteração da cosmogonia. Cada Novo Ano recomeça a Criação”.[2]

Afinal, quem de nós contemporâneos, não espera o Ano Novo com alguma cor simbolizando algo que deseja para o próximo ano, ou esses pequenos momentos de renovação, como o início de um novo mês ou uma nova semana, para iniciarmos projetos novos, como mudanças de vida, escolhas, regimes, academias ou, até mesmo, um novo emprego, com esperança de que esse novo início, inconscientemente, não traria também um novo augúrio?

Por fim, destaco esse item 7, contra uma prática muito presente em todas as religiosidades que possuem forte ligação com a natureza. É extremamente comum no Brasil, principalmente em grandes cidades, encontrarmos em encruzilhadas velas e oferendas, que são geralmente de religiões de matriz africana. O interessante aqui é observar que essas práticas, hoje veementemente condenadas, eram também comuns na religiosidade pagã da antiga Europa Ocidental, e sobreviveram dentro do cristianismo popular, num verdadeiro sincretismo tal qual o que ajudou a formar as religiões afro-brasileiras.

7. Tem ido rezar num lugar diferente da Igreja ou daquele que lhe indicou o bispo ou o sacerdote, quer dizer, junto às fontes, às pedras, às árvores, às encruzilhadas, e tem acendido lá por devoção uma tocha ou uma vela; tem levado lá pão ou alguma oferenda e tem comido buscando a saúde da alma e do corpo?

Sobre isso, também explica de forma brilhante Mircea Eliade, na obra citada:

As verdadeiras dificuldades surgiram mais tarde, quando os missionários cristãos se confrontaram, sobretudo na Europa Central e Ocidental, com as religiões populares viventes. De bom ou de mau grado, eles acabaram por “cristianizar” as Figuras divinas e os mitos “pagãos” que resistiram à extirpação. Muitos deuses ou heróis matadores de dragões transformaram-se em S. Jorge; os deuses da tempestade foram convertidos em S. Elias; as inúmeras deusas da fertilidade foram assemelhadas à Virgem ou às santas. Pode-se mesmo dizer que uma parte da religião popular da Europa pré-cristã sobreviveu, camuflada ou transformada, nas festas do calendário e no culto dos Santos. A Igreja teve de lutar por mais de dez séculos contra o contínuo afluxo de elementos “pagãos” (isto é, elementos pertencentes à religião cósmica) nas práticas e nas lendas cristãs. O êxito dessa luta encarniçada não foi muito grande sobretudo no Sul e Sudeste da Europa, onde o folclore e as práticas religiosas das populações rurais ainda apresentavam, em fins do século XIX, Figuras, mitos e rituais da mais remota antiguidade, e mesmo da proto-história.[3]

Assim como observou Eliade, a Igreja precisou lutar por mais de dez século e o cristianismo ainda continua lutando esse “combate espiritual”, nesse conflito entre religião institucionalizada e religiosidade popular, em que com seus sincretismos não produz simplesmente uma mistura entre religiões, mas algo novo e original. O fragmento do Decretorum libri ainda traz detalhes interessantíssimos sobre a religiosidade popular que merecem ser explorados em outro texto (e serão, em momento oportuno), principalmente sobre bruxaria. Mas, por enquanto, ficamos aqui com essa breve reflexão entre essa sociedade e sua religiosidade popular, festiva, pagã, cósmica, que desde o carnaval de Cachoeira Paulista, em 2005, provou que a apesar das virulentas pregações da comunidade religiosa vizinha, se recusa a desaparecer.



[1] PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. História da Idade Média: textos e testemunhas. São Paulo: UNESP, 2000, p. 147.

[2] ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Tradução de Pola Civelli. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 43.

[3] Ibid, p. 149.

Comentários

Eduardo disse…
Muito bom os seus textos, às vezes me pego lendo um ou outro. Abs
Oi Eduardo, muito obrigado pelo comentário.

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