Sobre Religião e Religiosidade
O paganismo e o cristianismo: reflexões a partir de um Carnaval em 2005.
No Carnaval de 2005, ainda
postulante da Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula, há quase vinte anos
atrás, eu e meus companheiros de seminários fizemos uma viagem para o município
de Cachoeira Paulista, para participarmos do acampamento de carnaval da comunidade
Canção Nova, uma das maiores, mais antigas e importantes comunidades da
Renovação Carismática Católica (RCC) no Brasil, fundada pelo monsenhor Jonas
Abib (falecido em dezembro do ano passado) no final dos anos setenta. Não ficamos
acampados, mas alugamos uma pequena pousada, com um grupo que era do movimento.
A rotina do evento era pesada, com atividades o dia inteiro, que se alternavam,
basicamente, em pregação e louvor, além da Missa no fim da tarde, longuíssima,
com homilia de exatos sessenta minutos de duração. Não que o nosso formador na
época fosse da RCC, muito pelo contrário. Ele, como homem de cabeça aberta que
era, achava importante conhecermos o movimento, assim como diversos outros
movimentos e espiritualidades da Igreja. Assim, nós também tínhamos uma rotina
mais livre e, por isso, tiramos um dia para conhecermos a cidade.
Distantes da sede da Canção
Nova, o turismo religioso diminuía, e vimos que a cidade era muito bonita. É
uma típica cidade do interior do São Paulo, próxima ao Vale do Paraíba. Vale destacar
a antiga estrada de ferro e sua belíssima estação de Cachoeira Paulista que, apesar
de desativadas, revelam como o seu passado havia sido majestoso. E, em nossa
caminhada, nos deparamos com um animado bloquinho de carnaval.
Não pude deixar de pensar
no contraste: no dia anterior, a pregação do monsenhor Jonas Abib era,
radicalmente, anticarnaval. Destacava os aspectos pagãos da festa, a gula, vaidade,
avareza, promiscuidade. Temas típicos desse tipo de movimento religioso.
Afinal, a RCC é uma vertente pentecostal, mas católica. Me lembro com bastante
clareza dos detalhes com que o pregador associava o personagem “rei momo” aos pecados
capitais. Como a comunidade estava lotada e a cidade estava curiosamente calma,
a impressão que dava era a de que todos estariam no retiro. Ledo engano. Apesar
da aparência, o povo de Cachoeira Paulista também tem suas alegrias para além
da religião e nem tudo se concentra na Canção Nova. Eu cheguei a comentar com
um amigo meu da época, também postulante, uma teoria de “paganização” da sociedade:
a ideia de que, apesar dos esforços da religião cristã institucionalizada, a
sociedade tem uma tendência para desenvolver também uma religiosidade própria,
ligada ao corpo e à vida, isto é, uma tendência natural ao paganismo. Lógico
que isso não era nada sério e não passavam de breves comentários de conversas
isoladas, mas esse contraponto, aparentemente contraditório, nunca deixou de me
chamar atenção. Apesar dos esforços da religião “catequizar” as pessoas, exorcizando-as
das suas práticas religiosas populares, as pessoas sempre encontram um jeitinho
de extravasar.
Ainda criança, minha mãe
também tinha o hábito de me levar em retiros religiosos, que mais tarde eu descobri
que também eram da RCC, e as pregações também eram muito semelhantes, sempre
contra as práticas festivas populares e suas manifestações religiosas. Hoje,
quando olhamos o discurso religioso de grupos neopentecostais, a pregação
também se concentra fortemente em combater as práticas religiosas populares,
que também se converteram em religião. E, quando olhamos a história, percebemos
que essa preocupação do cristianismo não é de hoje e, da mesma maneira que eu
pensei naquela pueril teoria da paganização da sociedade, também poderia pensar
numa teoria contrária, de que a religião sempre tenta controlar as
manifestações religiosas populares. Sobre isso, é muito oportuna a leitura
desse fragmento abaixo, de um documento medieval elaborado por Bernardo de
Worms, intitulado Decretorum libri, orientando contra a prática de
costumes considerados pagãos[1]:
1. Você tem consultado ou chamado magos para irem à sua casa a fim de conhecer ou purificar alguma coisa com a sua arte maléfica; ou bem, seguindo o costume dos pagãos, tem pedido aos adivinhos a predição do futuro como se fossem profetas? Tem recorrido aos sortilégios ou àqueles que através das sortes dizem prever o futuro, ou tem convidado na sua casa os que praticam augúrios e encantamentos.
Nesse fragmento, vemos
uma orientação da Igreja muito parecida com orientações de hoje, contra
práticas de previsão do futuro, oráculos, astrologia, quiromancia, cartomancia
etc. É interessante observar que tais práticas hoje, por incrível que pareça,
são extremamente comuns em igrejas cristãs, com o nome de “revelações”. A
diferença é que, fora de uma autoridade eclesiástica ou quando profetizada
desvinculada de algum versículo bíblico, ela se torna herética. Ainda cito mais
dois trechos do decreto, que merecem destaque e podem elucidar nossa breve
reflexão:
2. Tem praticado os atos pagãos, que foram transmitidos de pais para filhos até os nossos dias quase como um direito hereditário por instigação do diabo, isto é, honrar os elementos, como a lua, o sol, o curso das estrelas, o novilúnio, o eclipse da lua, à qual acreditavas poder restituir o seu esplendor com os teus gritos, ou tem acreditado que tais elementos podiam ajuda-lo e você ajuda-los? Tem esperado o novilúnio para acertar os seus negócios ou para concertar matrimônios?3. Tem celebrado as calendas de janeiro, segundo os usos pagãos, fazendo no ano novo algo mais do que costumava fazer antes e depois, arrumando nesse dia, na sua casa, a mesa com lâmpadas e pratos diversos, cantando e dançando pelas ruas e praças; ou tem-se sentado no telhado da sua casa dentro do círculo traçado à tua volta com uma faca, a fim de prever o que te aconteceria no ano seguinte...?
Aqui, vemos rigorosas orientações
contra práticas de religiosidades relacionadas à natureza. O item 2 é uma proibição
expressa contra práticas astrológicas, em especial as lunares, afirmando serem
de “instigação do diabo”. É interessante observar que as práticas de “esperar a
lua nova”, em certo sentido, sobrevivem e foram incorporadas por diversos tipos
de movimentos esotéricos e em simpatias populares, demonstrando como a
religiosidade, principalmente a proveniente do encantamento com a majestade da
natureza, sempre buscam formas de se adaptar para sobreviver. Não
representariam, no íntimo do ser humano, um reconhecimento da magnitude do
universo e da nossa pequenez diante da inesgotável beleza e mistério que nos
cercam. Da mesma forma, os ritos de novilúnio (lua nova), assim como os ritos
de Ano Novo, nada mais são do que os mesmos ritos (estes últimos ligados ao ciclo
solar), e também podem ser considerados como formas dessa religiosidade popular
em sua relação festiva e de contato com a natureza, em que, apesar da aparência
secularizada, representam o desejo de renovação, assim como a esperança de
construção de um futuro melhor, conforme observou o grande especialista romeno em
religiões e suas simbologias, Mircea Eliade, em sua obra Mito e realidade:
A renovação por excelência tem lugar no Ano Novo, quando se inaugura um novo ciclo temporal. Mas a renovatio efetuada pelo ritual do Ano Novo é, no fundo, uma reiteração da cosmogonia. Cada Novo Ano recomeça a Criação”.[2]
Afinal, quem de nós
contemporâneos, não espera o Ano Novo com alguma cor simbolizando algo que
deseja para o próximo ano, ou esses pequenos momentos de renovação, como o
início de um novo mês ou uma nova semana, para iniciarmos projetos novos, como mudanças
de vida, escolhas, regimes, academias ou, até mesmo, um novo emprego, com
esperança de que esse novo início, inconscientemente, não traria também um novo
augúrio?
Por fim, destaco esse item
7, contra uma prática muito presente em todas as religiosidades que possuem
forte ligação com a natureza. É extremamente comum no Brasil, principalmente em
grandes cidades, encontrarmos em encruzilhadas velas e oferendas, que são
geralmente de religiões de matriz africana. O interessante aqui é observar que
essas práticas, hoje veementemente condenadas, eram também comuns na
religiosidade pagã da antiga Europa Ocidental, e sobreviveram dentro do
cristianismo popular, num verdadeiro sincretismo tal qual o que ajudou a formar
as religiões afro-brasileiras.
7. Tem ido rezar num lugar diferente da Igreja ou daquele que lhe indicou o bispo ou o sacerdote, quer dizer, junto às fontes, às pedras, às árvores, às encruzilhadas, e tem acendido lá por devoção uma tocha ou uma vela; tem levado lá pão ou alguma oferenda e tem comido buscando a saúde da alma e do corpo?
Sobre isso, também
explica de forma brilhante Mircea Eliade, na obra citada:
As verdadeiras dificuldades surgiram mais tarde, quando os missionários cristãos se confrontaram, sobretudo na Europa Central e Ocidental, com as religiões populares viventes. De bom ou de mau grado, eles acabaram por “cristianizar” as Figuras divinas e os mitos “pagãos” que resistiram à extirpação. Muitos deuses ou heróis matadores de dragões transformaram-se em S. Jorge; os deuses da tempestade foram convertidos em S. Elias; as inúmeras deusas da fertilidade foram assemelhadas à Virgem ou às santas. Pode-se mesmo dizer que uma parte da religião popular da Europa pré-cristã sobreviveu, camuflada ou transformada, nas festas do calendário e no culto dos Santos. A Igreja teve de lutar por mais de dez séculos contra o contínuo afluxo de elementos “pagãos” (isto é, elementos pertencentes à religião cósmica) nas práticas e nas lendas cristãs. O êxito dessa luta encarniçada não foi muito grande sobretudo no Sul e Sudeste da Europa, onde o folclore e as práticas religiosas das populações rurais ainda apresentavam, em fins do século XIX, Figuras, mitos e rituais da mais remota antiguidade, e mesmo da proto-história.[3]
Assim como observou
Eliade, a Igreja precisou lutar por mais de dez século e o cristianismo ainda
continua lutando esse “combate espiritual”, nesse conflito entre religião institucionalizada
e religiosidade popular, em que com seus sincretismos não produz simplesmente
uma mistura entre religiões, mas algo novo e original. O fragmento do Decretorum
libri ainda traz detalhes interessantíssimos sobre a religiosidade popular
que merecem ser explorados em outro texto (e serão, em momento oportuno),
principalmente sobre bruxaria. Mas, por enquanto, ficamos aqui com essa breve
reflexão entre essa sociedade e sua religiosidade popular, festiva, pagã, cósmica,
que desde o carnaval de Cachoeira Paulista, em 2005, provou que a apesar das virulentas
pregações da comunidade religiosa vizinha, se recusa a desaparecer.
[1]
PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. História da Idade Média: textos e
testemunhas. São Paulo: UNESP, 2000, p. 147.
[2]
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Tradução de Pola Civelli. São Paulo:
Perspectiva, 2013, p. 43.
[3] Ibid,
p. 149.

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